segunda-feira, 24 de agosto de 2026

 Brigando com o vento

É sabido que mês de agosto venta. Às vezes muito, às vezes pouco, mas este agosto, especificamente, tá teimoso de vento. As plantinhas do jardim de inverno se debatem escandalosamente e as pedrinhas do Jean não sabem onde se colocam pois não há lugar em que fiquem quietas. Das pedrinhas se batendo gosto do tilintar, mas as plantinhas arrebentam folhas, o que não gosto.

Também se debate, pequeno crucifixo sobre o metal do portão dos fundos: tec, tec, tec. O tec, tec também não incomoda vez que é sutil: meu ouvido de onça é que percebe, mas tá tudo bem.

Agora, irritante sem conta é o barulho de folhas secas batendo nesse portão: elas veem rodopiando pela rua afora, hoje vi uma caindo do céu, e batem com força nos vidros. O som do sopapo é creque. Creque agora, creque depois, um, dois, três, eternamente creque se não cato as danadas.

Ao invés de usar pá e botar na lixeira, resolvi pegá-las com as mãos, quebrá-las pequenas e jogá-las nas terras dos vasos de plantas. Claro que não venço o vento, tantas folhas secas ele traz, mas vou economizar em adubação daqui até quando o vendo amainar.

Anteontem, fui ao mercado aqui do bairro comprar leite e ovos. Quase uma “venda” das que vivi quando menina pequena. Não é lugar de comprar muito, mas acrescentei ao cesto, duas garrafinhas de cerveja sem álcool. É que a secura está de adoecer a gente, e como não gosto muito de sucos, a água pura, sagrada, acaba enfastiando. Mas de tudo que vi, me assustou o preço da cenoura: 14,99 reais por quilo. Me acerquei da dita cuja pra ver se era diferente das que compro por 1,99. São os tempos de el Ninho fazendo com que a inconstância do clima detone a produção de alimentos. Ainda sorri, sarcasticamente, imaginando que em época de eleição, vão dizer que é culpa do governo.

Agorinha cedo havia folhas secas batendo nas paredes dos fundos, mas enquanto chequei uma plantinha, estava com água demais, 10 minutos? vi que as folhas do coqueiro de baixo da escada estavam paradas. Observei mais longe, noutros cenários e confirmei: o vento realmente deu uma pausa. Também, né? São “tantas emoções”!

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Magda Castro


quarta-feira, 3 de junho de 2026

PAUSA

A lida da casa pega a manhã quase toda, principalmente nos dias de catar lixo. Recolher, limpar, recolocar coletores, acompanha o varrer quintais, limpar pisos de cimento, de madeira, tirar poeiras, que mesmo não seja faxina geral toma boas horas. Isso depois da preparação do café, se sentar pra comer e tomar remédios, depois vem a lavação da louça, preparação inicial do almoço e adiante. E, regar plantinhas leva mais um tico porque cato praga, podo folha seca, giro vaso pro sol; como eu. Não resisto em retirar o agasalho que nesses dias de outono sai comigo do quarto; gosto demasiado de sentir o calor, quanto mais quente melhor, bater na pele adormecida. Proibido é, então faço durar pouco, mas o bastante.

Hoje tentei acelerar essa ciranda poque quis escrever. Essa tarefa estava meio renegada culpa do computador impossível de usar, mas certa alma generosa preparou instrumento que consigo usar; estou inaugurando essa ferramenta: “testando!”

Virginia Wolf escreveu que para se escrever são necessárias certas condições, como lugar adequado, silêncio, dinheiro; do que entendi, se não é isso que ela me perdoe, mas estou tentando me estruturar. Imaginação, do que entendo, é o começo de tudo. Tenho  problema danado com o título do que escrevo, mas vou remoendo ideias até que encontro algo razoável. E desse começo costumo embalar numa contação de fatos misturados com sentimentos que, vez ou outra, resulta na contação de historinha titubeante. Tá, dito assim até parece que o texto tem começo, meio e fim, mas, acredite, nunca termina com a intenção que começou. Porque comigo acontece de as palavras irem se misturando sem consentimento e quando vejo o fim bem que poderia ter sido o começo.

E assim seguirei. Contente.

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Magda Castro

Brasília, DF, 29 de maio de 2026.

 CHUVAS EM JUNHO

Acostumada à seca a partir do outono em Brasília, chuva com trovão e relâmpago em junho traz surpresa, boa, mas preocupante, uma vez que pode significar alongamento do período de estiagem, e logo, diferente inverno, demora maior da chegada da primavera e verão fora de hora. Claro, tudo são possibilidades, mas é bom repensar algumas rotinas. Não só as chuvas, mas o frio, brabo, me fizeram rever roupas de cama; descobri depois de checar novas e velhas que tenho apenas um cobertor e algumas colchas de algodão. Lençóis e fronhas parecem ter enfrentado qualquer coisa de destrutivo em algum momento, então, fui retirando peças pra remendar, lavar e secar ao sol; quando o sol retornar ao seu ponto correto.

O que sei também, ou não, que arrumar a casa para a estação vigente empata com arrumar o coração que nas idas e vindas do tempo, também sofre algumas revelias. Então, calha preparar aconchegos, doçuras, nacos de alegria pra “estender” no peito nos dias de frio, emocional no caso.

Digo assim porque aceito que relacionamentos, amizades inclusive, também se gastam: relação agradável vivida no verão pode não fazer bem no inverno, talvez incomodar, gerar maus entendidos. Mesmo que alguns, quando há vontade de, possam ser explicados e a convivência saudável possa ser recuperada, creio que, a partir do momento em que há dúvidas do que você é, mesmo depois de longa jornada partilhada, há, possivelmente, intenção do afastamento, do silêncio. Esse de quando não há resposta ao que você diz no WhatsApp, por exemplo, então, reflita por uns dias. Lamente por uma semana, reveja sua mensagem no “não lido” muitas vezes, pra ter certeza que não ofendeu a pessoa, mas por favor, não demore a enviar tudo pro “arquivadas”. Use seu precioso tempo separando os lençóis ainda em bom uso pras próximas estações.

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Magda Castro

Brasília, DF, 03 de junho de 2026.

sábado, 18 de abril de 2026

ROMANCE

A maca subia e descia vertiginosamente os corredores brancos. Os carregadores se divertiam discutindo o trajeto: por aqui pintaram por estes dias; sim, o caminho claro me levaria para um exame no subsolo. Um mundo no submundo, eu também me divertia em pensar nos tantos filmes de ficção cientifica que havia assistido. Chegamos. A maca foi enfiada numa sala mais fria que o polo norte e já estavam prestes a ligar os equipamentos, atenção, emergência! Fui retirada num segundo e colocada na parede de fora até que uma paciente em estado grave fosse examinada.

Foi aí que o revi: sentou-se junto aos maqueiros e começaram a falar de tudo enquanto a enfermeira que me acompanhava ajudava alguém do outro lado. Fiquei quieta, deitada, ouvindo partes da conversa. E logo fui içada novamente pra máquina que leria meus "pensamentos" de trás pra frente. "Não precisa ficar nervosa: conte até cinquenta e o exame estará pronto". Alguém cochichou pertinho.

Ele ainda ajudou os profissionais a me colocarem na outra maca, ajeitou minha cabeça sob o círculo redondo iluminado e saiu da sala. Mentiu, o moço: não consegui contar até cinquenta. E embarcamos de volta ao quarto através dos corredores brancos, sobe e desce "ladeiras", os carregadores rindo quanto me disparavam nas descidas. "Com medo?" Ele perguntou e me surpreendi que estivesse ali e pendurado aproveitando a carona dos maqueiros: a enfermeira tinha sobrado em algum ponto dos labirintos. "Nem um pouco. Confio."

O elevador pra subir pro mundo real demorou uns dez minutos. Foi quando uma senhora, parecendo íntima, o chamou de doutor. Ele ali, calado, ouvindo o que a mulher dizia até que o elevador chegou. Entramos todos que cabiam e a senhora se espremeu ainda falando: "esse elevador despencou comigo ontem". Caramba, que coisa de se dizer aqui e agora, pensei. Ninguém comentou.

Ela descei antes de nós; e seguimos os corredores impecáveis, os quatro. Foi quando o doutor, não sei o nome ainda, respirou fundo e desabafou: "Não sei o que pensam pessoas assim. Essa senhora maltratou todo mundo no laboratório e acha agora que é íntima."

Fiquei quieta; e ele nos seguiu, pendurado na maca, até a porta do meu quarto. Parecia um garoto de cabelos desgrenhados. 

O revi na UTI após a cirurgia, depois de outro exame. O terapeuta me segurava caminhando. Ele passou jogando ao vendo que o último exame indicou que tudo estava bem; que eu iria para casa logo. Palavras como essa fazem a diferença de um mundo inteiro pra pessoas que passaram pelo que passei. "Obrigada", respondi contente.

De novo no dia seguinte, o vi e ele repetiu o veredicto. Eu sabia que os profissionais diriam a mesma coisa pra todos os pacientes. Mesmo assim, quando ele veio internar alguém na cama em frente à minha, fiquei observando. Perguntei à minha filha: "Você acha que esse médico é muito novo?" "Sim, mamãe, muito novo". Mesmo assim, depois que o vi ter terminado a tarefa, o chamei: "Doutor, como você se chama? "Bruno". "ah!", foi só o eu que disse.

Secretamente, vi se na minha bolsa ainda tinha dos cartõezinhos brancos que costumo entregar a pessoas interessantes com meu nome e telefone. Imaginei o que escreveria para o Doutor Bruno: "Bruno, gostei de conhecer você. Aqui não tem meu telefone, mas o endereço da minha casa. Quando quiser falar mal da vida alheia, ou de Filosofia, venha a qualquer hora. Haverá café quente e pão-de-queijo assando a esperá-lo".

PS: Não havia cartõezinhos brancos na bolsa.

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Magda Castro

Brasília, DF, 18 de abril de 2026.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

OUTONO, OUTRA VEZ

Nesse ano completarão dezenas de outonos que vivo: milagre. Em meus mais arrojados sonhos nunca constou chegar aqui. Me reconhecer velha começou com esforço extra e até recebi conselhos de "deixar essas coisas pros jovens". Ignorei. Sei que posso, sei que consigo, repetia, até há poucos dias. 

Então, reconheci numa tarde sem que nem pra quê: eusinha, velha. Acho que foi porque encarei minhas mãos sinceramente, sem maquiagem. Das mãos, passei pro espelho, melhor, amplieu foto recente e me surpreendi com a imagem da minha mãe. Pensei: essa sou eu, mas foi assim que vi minha mãe um dia. Meu pensamento disparou pros meus filhos: é assim que me veem. Essa sou eu de verdade, hoje.

O coração, entretanto, minha alma, melhor, pulsa mesmo que quicando, com tremenda emoção, quando ainda posso abrir janelas nas manhãs, quando cuido dos vasos de flores, quando recebo mensagens no WhatsApp e até me divirto como é diferente o mundo que vivo agora velha do mundo que vivi jovem. Lembranças do tempo de outrora, intactas e vívidas, tilintam pelo meu mundo atual e ecoam pelas paredes da casa à fora.

O meu tempo de agora, em contagem regressiva, entretanto, insiste em ecoar com força através das coisas cada vez mais valiosas que me compõem agora. Coisas poucas, e cada vez menos: coisas preciosas, cada vez mais.

E, nessa manhã fresca de outono, enquanto ouso vozes distantes, um cão, prometo, com gratidão transbordante, já que viver é espetáculo: fiz isso o melhor que pude quando jovem e farei assim, viver a melhor vida que me couber, como velha.

Por

Magda Castro

Brasília, DF, 16 de abril de 2026.

 

domingo, 12 de abril de 2026

QUEBRANDO CABEÇA

Depois do veredicto do Neurologista ao terceiro exame, parti pro hospital. Recebi a sugestão de retirar o ET do crânio pra não causar problemas futuros. Escolhi data e local: Hospital de Base do Distrito Federal. "Lá é pauleira, mãe, vc vai aguentar?" Se não, qual opção teria? Sem plano de saúde, vender a casa, impossível, com boi na linha? "Aguento"

Pacientemente, calmamente, esperei chegar o momento de ser tratada. E dispensei acompanhante. Mesmo uma noite dormindo em cadeira, mesmo vendo gente morrer, mesmo ouvindo gritos de dor em ambiente extremamente nocivo, fui me resguardando como pude, caprichando na alimentação, na água, tomando certinho os remédios, a princípio os que levei, e sem reclamar nem uma vírgula. Tudo escolhi, assumia a cada momento: vou aguentar. 

Já na emergência começaram exames; três dias depois, internação no terceiro andar: Neurologia. Análises das condições do meu corpo eram feitas três vezes ao dia. Remédios foram reescalonados, exames de todo tipo se multiplicaram, quarto e banheiro limpos todas as manhãs, alimentação apropriada e farta: depois de alguns dias pensei ter me curado.

Entretanto, os profissionais atentos marcaram o dia da cirurgia: foi quando a Carol chegou do sul pra se juntar à trupe local. Só a vi depois que saí pro corredor já acordada da anestesia. Ela e Clara me receberam de volta ao mundo dos vivos, agora, com a cabeça cortada. Eu estava bem, continuei bem até sair dali de volta pra casa, caminhando.

Eduardo, Carolina, Maria Clara, Amanda, Ana trabalhavam na logística pra minha volta pra casa: dedetização, colocação de barras nos banheiros, compra de comida e remédios e muito mais. 

A recuperação relâmpago me rendeu alguns apelidos, sem problema, acabamos nos divertindo com as brincadeiras. E, logo, o mundo voltou a ser o que tinha sido: cada um vivendo a própria vida como escolhas próprias. Com um plus, entretanto: a adversidade fez com que nossos laços de família se estreitassem e o que cada um aprendeu não tem preço.

E, hoje, domingo, o sol disputa o céu com nuvens errantes de outono; há frescor nesse começo da nova estação: e gratidão sem tamanho pela experiência vivida, pelo amor recebido de todas as direções, pela alegria de estar novamente no meu canto da casa tomando o café da manhã. 

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Magda Castro

Brasília, DF, 12 de abril de 2026.

segunda-feira, 9 de março de 2026

...NÃO FOI SEMPRE ASSIM

Todas as manhãs, como ritual ou hábito de oração, envio mensagem pro Jean pelo WhatsApp. Escolho entre as que guardo como especiais e encerro, todas, com "Deus o abençoe, filho amado!" Depois, toco os pês de Nossa Senhora Aparecida e rezo tantos pai-nosso quantos dou conta misturados com ave-marias enquanto arrumo o quarto tentando começar o dia. Ainda rezando, desço escadas equilibrando bandejas, celular, saco de lixo.

Hoje cedo, ao botar o lixo na rua, vi um jovem catando plásticos e latinhas. Já o havia visto antes e, algo me deu vontade de ajudar: puxei conversa. Ele lutava pra pendurar tudo na bicicleta; perguntei se estava bem, e a esposa. Ele se sentiu à vontade, contou estar indo de volta pra Goiás que a irmã iria ajudá-lo a terminar os estudos. Foi daí que ofereci: "Tenho cadernos guardados, se precisar, pode vir buscar depois". Ele consentiu.

Foi por isso que abri de novo armários inertes à procura dos tais cadernos. São muitos de tantos tempos, meus e das "crianças" guardados como lembranças. Dentre eles, havia alguns bons, mas três deles estavam amarrotados, manchados de muitas cores entre tintas, bolor, rabiscos; são do Jean.

Todas as vezes que os pego, vasculho as anotações, os números, os rabiscos, tudo o que pode me indicar o porquê. Procuro os sinais, as provas de como meu filho era, tentando entender, explicar, aceitar. Desta vez, de dentro de um dos cadernos empoeirados achei uma lista de exercícios, parecendo ser de finanças, com o registro do número de aluno do ano 1995. Todas as respostas tinham um C vermelho possivelmente de quando o professor os corrigiu.

Sim, todas as respostas tinham o C de certo; e o nome dele em letas firmes, redondas de mesmo tamanho, claras, bonitas eu diria, estava escrito num canto de página. 

Provas de que era assim o meu Jean.

Magda Castro

Brasília, DF, 09 de março de 2026.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

ESPALHANDO PÉTALAS
Esse tempo novo, novo para mim que ainda não me acostumei cem por cento em viver a vida que cabe apenas a mim: é que a maior parte vivi dedicando atenção mais aos meus amores ao redor do que a mim. Estou fazendo esforço hercúleo de virar meu olhar pro meu nariz e do resto de mim, da cabeça aos pés. Do pé especialmente cheio de pequenas veias coloridas e depois da cabeça, e do que tem nela, afinal.
Fiz o terceiro exame na semana passada depois que a médica daqui da unidade de saúde cismou que tinha algo errado com minha cabeça. Ela não gostou do primeiro, mandou o segundo prum especialista louco que me sentenciou à beira da morte e o terceiro, outro especialista indicado pelo primeiro, pediu exame mais aprofundado. Todo mundo em dúvida, inclusive eu, que não sentia nada além do que já sinto todo dia.
O resultado do terceiro exame saiu ontem. Minha turma acompanhou e ajudou nessa maratona e Eduardo correu ao laboratório para recolher as novas informações. Sim, o caso é que desde o primeiro exame foi identificada presença sem convite no crânio, então, a ideia agora é comparar os tamanhos. Por ora, sabe-se que a visita ficou mais bem identificada e, parece, não pretende me fazer mal imediatamente. Alívio prum dia de Carnaval; mesmo que tenha que me submeter a outros procedimentos, ainda não preciso doar meus livros ou pequenos tesouros, poucos, tão imediatamente. Podemos descansar um pouco do susto, viver rotinas sem correrias.
Parece que tenho tempo pra viver outros dias, talvez construir novas memórias, rever amigos, tomar aquele pro seco guardado, terminar de ler dois ou três livros começados, quem sabe visitar amores distantes; é que, parece, ainda tenho tempo.
Enquanto isso, solenemente, como ritual sagrado, podo as pequenas roseiras do balcão, recolho pétalas de duas flores e as espalho ao vento através da manhã espetacular do verão escaldante a minha frente.
Magda Castro
Brasília, DF, 17 de fevereiro de 2026.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026



PENSA NUMA MANHÃ PERFEITA!!
Me levantei tarde porque estava ainda sonolenta quando acordei pelas 4 da manhã, fui ao banheiro e resolvi apostar de novo no aconchego das cobertas; friozinho, o tempo, estendi a colcha de lã sobre o edredom, me virei pro lado do coração e puf! apaguei sem ver. Acordei depois das 8; e já que hoje não tenho compromisso, o de tirar o lixo é o mais premente, me recostei, abri o celular, mandei a mensagem diária pro Jean, vi quem tinha vindo me dizer bom dia, respondo durante o café, à mesa, e me levantei já juntando as cobertas, sacudindo, pensando que de noite devo abri-las de novo pra checar se insetos vieram visitar. É que andam muitos, de muitos tipos, nesses dias quentes de chuva que procuram abrigo, sim, só que nesse abrigo já mora um animal, eu, daí há pouca possibilidade de outro ser habitar o mesmo espaço, ainda mais se for escorpião (Irq!!!).
Sei que desci animada ansiando por café. Fome não estava com muita porque tomei sopa deliciosa ontem já de noite, mas urge que coma pra tomar remédios. Remédios de controle da pressão arterial, glicose e coisinha ou outra, mas não pra dor, não ainda. Já senti dor de cabeça, pouca, de ouvido, quase nada, e quando uso muito rodo ou vassoura pela casa afora tenho dores nos ossos, mas todas, quando me movimento entre loucas, plantas, roupas, nas lidas comuns do lar, todas as dores passam. Ainda passam. Sei que não será assim pra sempre, mas ainda não há grandes dores. Sim, há umas sensações estranhas como a cabeça pesar, a visão diminuir e eu ficar vendo estrelinhas. Paro, tomo meio copo d'água, do filtro de barro que lavo todo dia, me sento, de preferencia vendo noticias e séries pelo computador, e tudo vira alívio.
E, contrariando expectativas, ao puxar a água com desinfetante que joguei na garagem dos fundos porque esvaziei os baldes de água da chuva pra contrariar também mosquitos, senti dor num dos lados da perna; leve. Parando, pensei. Bóra encerrar as tarefas já chegando meio dia: juntei e pendurei coisas, então, me deu na telha de abrir a pesada porta de vidro que dá pra rua.

O vento que entrou saiu levando cheiro de erva-doce através da cozinha, da copa, avançou pelo jardim de inverno tresloucando as pedrinhas e sacudindo folhas, atravessou corredores, invadiu a sala e se espalhou pelo mundo afora depois que cruzou as janelas da varanda. O frescor tomou conta da casa toda; eu? percorri devagar cada cômodo em deleite. Delícia de manhã!!

Magda Castro

Brasília, DF, 03 de fevereiro de 2026.   


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

MALA DE VIAGEM

Segunda-feira, em geral, começo recolhendo o lixo do banheiro; depois de abrir as janelas de cima. Em seguida, tiro o lixo da saleta, desço, junto o da cozinha já ensacado de véspera, parto pra catar o da varanda. Juntado esse lixo, varro a calçada dos fundos e pronto! Rua! que o caminhão pega tudo logo de manhã. Hoje, dia lindo de verão com promessa de chuva, tinha roupas íntimas no saco de lixo; essas não poderão ser doadas.

É que preciso continuar as doações de toda espécie já que botei a casa na imobiliária para vender por motivo de viagem. Agora, pensa a dificuldade que tenho em fazer mala. Enquanto escolho o que levar, vou vasculhando cantos, abrindo gavetas, caixas, desarrumando arrumações. Vou limpando frestas, tirando teias de aranha, colocando sachês perfumados de volta. Sempre quero deixar tudo pronto para quando voltar. Por outro lado, me preocupo se o clima lá será diferente daqui, se meus novos compromissos exigirão isso ou aquilo, quem encontrarei.

Viajar traz surpresas de todo tipo, logo, não se deve andar com malas pesadas demais: atrapalhariam aproveitar melhor a viagem.

Magda Castro

Brasília, DF, 02 de fevereiro de 2026.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

De escorpiões

A cidade cimentada, mesmo que com plantas simétricas, nos traz a ilusão de que o mundo lá fora não existe e que vivemos em eternas perfeições; das do tipo que compramos em supermercado. Desses, há tantos hoje que me esforço pra lembrar detalhes dos armazéns encantadores onde comprava bolachas maria no quilo. Saía da venda tilintando tamancos e beliscando delicias raras até virar a esquina de casa.

De ilusões, também tantas, vivi muitas pela vida afora, e, creio ser jeito meu de ser, custava reconhecer a realidade do que e quem me cercava. Como levando bolachas, segui feliz cumprindo o destino e me esforçando pra ser pessoa boa. É que dentre essas ilusões, a que me cercava a miúde era de que se fosse boa seria recompensada; se fizesse tudo certo não seria castigada; e seria amada. Coisa boa ser amada, né? Esse era meu jeito de pensar o mundo, e vivia de acordo.

Entre vírgulas e interrogações pela  vida afora, chegou o momento, natural, de  fazer a leitura da "coisa": pessoas não são o que parecem, eu junto, e mesmo que se tenha feito o certo, ou tentado, não haveria misericórdia se envolver interesse maior que o seu. No caso, pessoas nem se dariam ao trabalho de lhe explicar a paulada: você que se vire!! Pedido de desculpas, ou gesto de gratidão, não haverá: pode chorar, mas vai enxugar as lágrimas sozinha. E arrisca ainda ter que pagar a conta, lição inesquecível. Agora, que jamais esquecerá será o apelido jocoso, algo como "porca louca", que tal? Entendeu?

Sim; adeus às ilusões é nome de filme, ficção, mas que conta realidades, e pensa no tanto que é triste esse "filme". É triste, e mais, pode ser susto grande, surpreendente, ler realidades; o maior desafio humano? Mas de susto em susto pode-se aprender outro pedaço quando o real acontece no nosso mundo plastificado: já caia a noite quando tive que abrir a porta da área de serviço. Não entendi de imediato o  que era aquela coisa dourada bem à frente. Precisei raciocinar para acreditar que aquilo ali era escorpião, e pertinho dos meus pés. Escorpião no meu mundo arrumado? Como é possível isso? De onde vem, e porque está aqui?

O que sei, por ora, é que é tempo de escorpiões. 

Por Magda Castro

Brasília, DF, 15 de dezembro de 2025.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2025

SOSSEGO

Um dia sonhei viver em casa pequena com uma janela, ou duas, que se abrisse pra mato exuberante. E o som que ouviria seria o do vento, de preferência balançando as folhas das macaubeiras, e dos passarinhos cantando melodias de todo modelo. Dessa janela solteira eu poderia chegar ao céu depois que vigiasse colinas e depois montanhas. E o resto seria silêncio.

E, nessa manhã já passando pra tarde, abro uma janela, de muitas, da casa onde vivo, por décadas, e observo o jardim alagado da chuva da noite passada. Tem plantinhas em vasos brancos; numa parte do ano há muitos tipos de flores, noutra parte há o verde que amo. Vez ou outra descubro perfume, surpresa. Dessa janela posso chegar ao céu se ultrapassar a visão do muro, e percebo pássaros circulando estridentes entre fios e árvores antigas além.

Piso satisfeita as pedras do pátio e checo pragas. Retiro um tomateiro invadindo a amora recém plantada. No vaso de amarílis, as capuchinhas formam tapete, retiro. Sem sol nas raízes amarílis não floresce. A chuva fina me refresca delicadamente, e os sons da rua misteriosamente distanciam. Até os cotidianos pardais calam: ouço silêncio no mundo, e no meu coração.

Brasília, DF, 03 de novembro de 2025 



quinta-feira, 23 de outubro de 2025

PARA AMANDA

Filha, Flor, cheguei bem; embora não quisesse chegar: preferiria ficar com você curtindo esse canto de encanto onde você mora. Preferiria curtir você, minha caçula encantada. Usaria a desculpa que me apaixonei por São Paulo, ou que estaria ajudando limpar, cozinhar, ou descer com o Connan. Poderia usar tantas desculpas para ficar vendo você acordar todas essas manhãs indecisas; é que nunca sei o que fazer com as manhãs em São Paulo antes de você acordar. Você, acordando me diria faça isso ou aquilo mãezinha ou me levaria a um lugar bonito, à piscina do prédio, à feira do outro lado da rua, à conveniência lá embaixo. Você me diria o que queria comer; e com dotes culinários limitados eu daria tratos à bola pra fazer algo pra comermos. E mesmo que não fosse você diria delícia. 

Todos os dias de manhã, ou de noite ou em tardes quentes, seriam lindos vendo você se enfiar nesse computador e falar com o país todo, ensinar alguém desafinado a cantar, e você riria. melhor, você geralmente gargalha quando fala de sua arte, e mais, quando dá dicas únicas ensinando músicas espetaculares. E quando você dá uma palhinha, traço de música que você cantaria com a voz divina, o dia estaria salvo, o meu mundo estaria salvo para sempre.

E eu ficaria ali com cara de boba, silêncio com coração em galope tanto orgulho; e nada mais a querer. 

Mas vim de volta pra casa. Tenho confortos que nunca esperei, tanto que posso dizer que sou feliz, e se não considerar meu coração calado. E sou grata, muito. Claro que poderia morar mais perto de você; é essa ideia de que você poderia precisar de mim de repente como se você não tivesse crescido. Só que você não é menina desamparada; é mulher certa do que quer, vai atrás, não fica choramingando pelos cantos. Já lhe disse algumas vezes que tenho orgulho da pessoa que você se tornou. Você tá grande, vi assim de repente olhando bem, você está imensa, se expandiu, alcançou espaços nunca antes discutidos. 

Uma de minhas crenças de vida é que meus filhos poderiam ir aonde quisessem, a Terra é grande, o Universo infinito. Amanda, você se torneou pessoa acima do convencional "singrando mares", todos eles, bravios inclusive. Foi por isso que no dia de partir, abracei sua cabeça e lhe disse "está tudo bem" e "confio em você". É que suas coisas estão arrumadas do seu jeito, vive no mundo construído pelas próprias mãos e coragem; de acordo com seu conceito de liberdade. 

E, de repente, vi libertando você de mim. De repente, vi que o que quer que você vivesse seria por suas escolhas e que não caberia a mim, não mais, fazer essas escolhas. Sentindo fundo meu coração prometi a mim mesma que respeitaria essas escolhas fossem quais fossem, filha querida. 

Amanda, amo você sem medida.

Brasília, DF, 23 de outubro de 2025.

TARDE DE CHUVA E CAMARÕES

Combina nadinha, confesso. Camarões combinam com dias incandescentes em beira de mar. Por ora, o que tenho, entretanto, pois cheguei há pouco de viagem, camarões era o que tinha no freezer. Até que o mercado não é longe, mas, o banco tá me mando recado que não é inteligente usar o limite do cheque especial nesses tempos; assim, a comida vai ser camarão com arroz, tomate e banana. 

Inédito almoço, mas delícia mesmo assim. Delícia e sossego na sala quieta com vista para a chuva suave caindo no jardim de inverno. Bom sem tanto ver as folhagens verdejantes de primavera e o som das pedrinhas do Jean dançando ao vento.

é que a primavera chegou, afinal, mesmo que tenha demorado montes.

Brasília, 17 de outubro de 2025.


quinta-feira, 21 de agosto de 2025

 MANHÃ COM CHEIRO DE LARANJA

Que o perfume da flor do pé de laranja é maravilhoso não duvido, mas quase tão bom quanto é o cheiro da casca seca da fruta. De tempos idos tenho o hábito de juntar as cascas de laranja num pilão: me ensinaram isso Tia Cândida, Vovó Maria Clara, Mamãe. 

De começo é só um tantinho, mas casca a casca todo dia, de repente o pilão fica pela beirada, então, pego a mão-de-pilão e soco devagar, as cascas secas estralando e se espalhando pelo chão. O melhor de tudo, o cheiro vai exalando pouco a pouco tomando conta da casa, bom demais pra substituir o cheiro de poeira que parece ainda dura por aqui.

Ontem abri, melhor, derrubei num plástico os galões de compostagem, quase já passado da hora que a primavera se avizinha, pra preparar adubo pras plantinhas. À noite queimei gravetos, de noite, friso, e hoje cedo juntei as cinzas à terra enquanto a remexia catando possíveis pragas.  Reguei levemente pra não escorrer tudo e juntei o pó de laranja. Compostagem tem odor forte, mas depois de tudo bem misturado, pensa na diferença! 

Agora é distribuir pelos vasos a terra tratada, e esperar as flores da primavera.

Por Magda Castro

Brasília, DF, 21 de agosto de 2025.

sábado, 16 de agosto de 2025

 JANTAR DE SÁBADO À NOITE EM BOA COMPANHIA

Precisei comprar mamão, e ir à casa da Clara pegar frutas e carne que ela se esquecei de trazer; viajou e vai demorar a voltar. E regar as plantinhas da casa dela, impecável alias, tudo no lugar. 

Tarde de inverno, plantas desmaiadas, folhas secas batendo em muros e calçadas; ruas quietas do sábado de tardezinha já mostrava raios do por do sol chamejante, espetáculo incansável de se ver. Fiz a compra e pequei o caminho contrário a minha casa. Cumpridas as tarefas da visita, desci com malas e cuias e indo embora vi o restaurante de sushi aberto, comida que gosto um pouco. 

 

quinta-feira, 7 de agosto de 2025

CONJECTURAS IMPRECISAS

Nesses dias típicos meus, gosto de devanear e numa das coisas que pensei hoje cedo enquanto no meu banho, de sol, regando minhas plantinhas é de como serei quando for velha. Tem gente que acha que já sou, o Estatuto do Idoso prova, e meu espelho rí da minha cara a cada dia mais amassada. O que é importante, entretanto, é meu coração acreditar ou não.

Raciocino, o que já é ponto a considerar bom; funciono toda mesmo que quicando parte ou outra. Até agora, não botei celular pra congelar, não andei nua em onde não é de bom tom, não rasguei dinheiro, pra citar os exemplos mais populares. Ainda cumpro compromissos, a consulta médica costuma ser o mais constante; pago em dia as contas, o que, claro, estão programadas eletronicamente; e datas não faço questão de lembrar todas desde moça, agora, então, estão relegadas ao ostracismo. Não me pergunte das notícias do dia: doei a televisão; não acompanho sítios de fofoca, vídeos de celebridades ou vida alheia: só dão canseira e desperdiçam meu precioso tempo. Ouço música e só aquelas escolhidas a dedo numa playlist quase acintosa que fiz. Leio livros, acabei de renovar os óculos pra tirar o atraso. E, finalmente, me deleito com séries asiáticas, e excepcionalmente, inglesas, quando quero tergiversar mergulhada num pode de pipoca doce.

Tudo o mais está em perfeito equilíbrio em seus devidos lugar e tempo.

Magda Castro

Brasília, DF, 07 de agosto de 2025.

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

 VENTOS DE AGOSTO

Não acredito, mas assim que abri a porta da rua, um carro veloz avançou sobre a calçada que eu pisava. O susto foi grande que gritei com o motorista pra usar a rua, olha a calçada quebrada, o que talvez ele não tenha ouvido, espero. Mas foi por um tris que me livrei dessa.

Precisei sair pra ir à feira comprar queijo e castanhas depois ao mercado comprar pão. Quando terminei, ao atravessar a rua, olhei pra lá, olhei pra cá; tudo certo, avancei. Foi o tempo exato de levar outro susto: um Jeep avançava rápido em marcha-a ré bem no meu rumo. Uma moça gritou. Pulei, melhor, meu coração. A valença é que sempre ando com água na sacola. Dois goles, me acalmei; e rumei atenta pra casa. Tranquei a porta por dentro e fui ver se ainda havia incenso, do brabo, pra queimar.

Não é que acredito...


Magda Castro

Brasília, DF, 04 de agosto de 2025.


quarta-feira, 23 de julho de 2025

 DESCONCERTANDO

Hoje de manhã queria voltar pra cama depois de tomar café e remédios. É que o dia de ontem foi meio desconcertante. E a noite foi de sonhos também desconcertantes; longa sequência de desconcertos. 

Ocorreu que ontem, mesmo que tenha me preparado minuciosamente pra um exame, assim que saí de casa peguei ônibus do lado errado da rua. Fiz tour pelo bairro e arredondezas até chegar na estação do metrô; e fui abalroada pela porta. Roxos novos? Nada sério. E errei a estação de desembarque. Nada grave, peguei outro carro de volta. Desci num mundo desconhecido e quis muito ter bussola que me dissesse norte ou sul! O google maps não me indicou se estava indo pra lá ou pra cá. Liguei pra clinica, disseram que perguntasse aos vizinhos. Por fim, peguei Uber pra achar o lugar. Cheguei na hora e levei um chá de cadeira pelas próximas hora e meia. Isso já somava próximo de cinco horas, nada a reclamar, eu contava com isso. Mas não contava que o lugar sem janelas era labirinto de paredes brancas. Tá, posso administrar isso: caminhei onde pude, fui ao banheiro, bebi água, comi baru, me sentei de novo pacientemente. Quando a atendente me botou num armário pra tirar roupas e badulaques, desconfiei que estava ansiosa. Tive certeza quando o técnico me envolveu  a cabeça com grade de ferro, me botou surda e entregou uma coisinha pra chamar por ele caso precisasse. Perguntei quanto tempo duraria, oito minutos é eternidade, decidi. Desisti, o técnico me libertou, remarquei o exame, pedi ajuda a minha filha pra próxima tentativa. Frustração? Todas. Ainda argumentei com meus botões que tinha me esforçado por aquilo, gastado tempo e dinheiro e iria desistir? A grade continuava na cabeça e não saiu mesmo depois que bebi muita água fresca, lanchei, vesti pijama e adormeci. Talvez por isso sonhei com meu filho longe há tanto tempo.

Juntando tudo, hoje me levantei tarde, mas preparei o café como sempre, tomei remédios e iria pra cama de novo, mas precisei jogar a água da lavagem de loucas nas plantinhas que a seca não perdoa. Foi quando vi o buquê de flores do manacá da serra abertas no primeiro estágio: brancas. Elas ficariam lilases depois de uns banhos de sol. Tirei foto, mandei pra minha caçula longe. E fui tirando fotos das outras flores e mandando mensagens pro nosso grupo, pras amigas, pra colegas. Nessa lenga, lenga, o dia já vai longe transformando desconfortos e pesadelos em tarde sossegada. A grade na cabeça? Por ora, não preciso pensar nela.

Magda Castro

Brasília, DF, 23 de julho de 2025. 


quarta-feira, 16 de julho de 2025

CATANDO ARROZ
Nesses tempos despretensiosos, coisas mudam depressa demais. Eu tinha certeza que era cuidadosa com as coisas do dia a dia, botava tudo no lugar, achava tudo até no escuro. Hoje cedo prestei mais atenção num ocorrido e tive que admitir que já não sou mais a mesma.
Há dois dias, peguei o pote de milho de pipoca e intentei colocar na pia perto do fogão. A panela larga estava quase quente com a manteiga estralando delicadamente. Não sei porque cargas d`água, de repente procurei o milho assim já quase passada da hora de botar no fogo, e cadê? me virei pra ver se estava no balcão mais longe e dei um passo. A sapatilha laranja de pano, outra herança das que minhas filhas não querem mais, mas boa sem tanto pra aquecer os pês nesses dias gelados estralou. Olhei pra baixo e lá estavam os grãos, também laranjas, espalhados no piso branco, encardido, registre-se. Me diverti com tantos laranjas descobri de uma vez só ali; e a panela estralando. Desliguei. Levei um tempo gigante pra limpar tudo e finalmente estourar a pipoca.
Ai, hoje ali por volta do meio dia, tomei café da manhã às 10 e 30 hs, resolvi adiantar o almoço e botar a panela elétrica pra ir tomando conta do arroz. A mistura seria frango com quiabo; o frango foi congelado temperado, então, ´tava fácil. 
Me distraí fazendo não sei o quê, e grãos brancos deslizaram em cadência pro chão, pra debaixo do fogão, da fruteira, pros armário e geladeira do outro lado da cozinha. Uai, Dona Magda, desde quando vc inventou de derrubar de tudo o quanto há? O Alexandre passou na hora e disfarçou o riso num comentário que não me lembro e foi pro quarto.
Peguei o arroz com cuidado, fui pra frente da luz do jardim catar os ciscos, isso me lembrando do tempo em que catava cascas de arroz na peneira, lavei e botei na panela. Depois de almoçar, ao limpar melhor a cozinha, descobri junto aos grãos de arroz remanescentes, grãos de milho de pipoca. Esses foram pro lixo, contrariada não acredito que o milho viraria pipoca se cozidos junto ao arroz.

Magda Castro
Brasília, DF, 16 de julho de 2025.