PARA AMANDA
Filha, Flor, cheguei bem; embora não quisesse chegar: preferiria ficar com você curtindo esse canto de encanto onde você mora. Preferiria curtir você, minha caçula encantada. Usaria a desculpa que me apaixonei por São Paulo, ou que estaria ajudando limpar, cozinhar, ou descer com o Connan. Poderia usar tantas desculpas para ficar vendo você acordar todas essas manhãs indecisas; é que nunca sei o que fazer com as manhãs em São Paulo antes de você acordar. Você, acordando me diria faça isso ou aquilo mãezinha ou me levaria a um lugar bonito, à piscina do prédio, à feira do outro lado da rua, à conveniência lá embaixo. Você me diria o que queria comer; e com dotes culinários limitados eu daria tratos à bola pra fazer algo pra comermos. E mesmo que não fosse você diria delícia.
Todos os dias de manhã, ou de noite ou em tardes quentes, seriam lindos vendo você se enfiar nesse computador e falar com o país todo, ensinar alguém desafinado a cantar, e você riria. melhor, você geralmente gargalha quando fala de sua arte, e mais, quando dá dicas únicas ensinando músicas espetaculares. E quando você dá uma palhinha, traço de música que você cantaria com a voz divina, o dia estaria salvo, o meu mundo estaria salvo para sempre.
E eu ficaria ali com cara de boba, silêncio com coração em galope tanto orgulho; e nada mais a querer.
Mas vim de volta pra casa. Tenho confortos que nunca esperei, tanto que posso dizer que sou feliz, e se não considerar meu coração calado. E sou grata, muito. Claro que poderia morar mais perto de você; é essa ideia de que você poderia precisar de mim de repente como se você não tivesse crescido. Só que você não é menina desamparada; é mulher certa do que quer, vai atrás, não fica choramingando pelos cantos. Já lhe disse algumas vezes que tenho orgulho da pessoa que você se tornou. Você tá grande, vi assim de repente olhando bem, você está imensa, se expandiu, alcançou espaços nunca antes discutidos.
Uma de minhas crenças de vida é que meus filhos poderiam ir aonde quisessem, a Terra é grande, o Universo infinito. Amanda, você se torneou pessoa acima do convencional "singrando mares", todos eles, bravios inclusive. Foi por isso que no dia de partir, abracei sua cabeça e lhe disse "está tudo bem" e "confio em você". É que suas coisas estão arrumadas do seu jeito, vive no mundo construído pelas próprias mãos e coragem; de acordo com seu conceito de liberdade.
E, de repente, vi libertando você de mim. De repente, vi que o que quer que você vivesse seria por suas escolhas e que não caberia a mim, não mais, fazer essas escolhas. Sentindo fundo meu coração prometi a mim mesma que respeitaria essas escolhas fossem quais fossem, filha querida.
Amanda, amo você sem medida.
Brasília, DF, 23 de outubro de 2025.
