quinta-feira, 16 de abril de 2026

OUTONO, OUTRA VEZ

Nesse ano completarão dezenas de outonos que vivo: milagre. Em meus mais arrojados sonhos nunca constou chegar aqui. Me reconhecer velha começou com esforço extra e até recebi conselhos de "deixar essas coisas pros jovens". Ignorei. Sei que posso, sei que consigo, repetia, até há poucos dias. 

Então, reconheci numa tarde sem que nem pra quê: eusinha, velha. Acho que foi porque encarei minhas mãos sinceramente, sem maquiagem. Das mãos, passei pro espelho, melhor, amplieu foto recente e me surpreendi com a imagem da minha mãe. Pensei: essa sou eu, mas foi assim que vi minha mãe um dia. Meu pensamento disparou pros meus filhos: é assim que me veem. Essa sou eu de verdade, hoje.

O coração, entretanto, minha alma, melhor, pulsa mesmo que quicando, com tremenda emoção, quando ainda posso abrir janelas nas manhãs, quando cuido dos vasos de flores, quando recebo mensagens no WhatsApp e até me divirto como é diferente o mundo que vivo agora velha do mundo que vivi jovem. Lembranças do tempo de outrora, intactas e vívidas, tilintam pelo meu mundo atual e ecoam pelas paredes da casa à fora.

O meu tempo de agora, em contagem regressiva, entretanto, insiste em ecoar com força através das coisas cada vez mais valiosas que me compõem agora. Coisas poucas, e cada vez menos: coisas preciosas, cada vez mais.

E, nessa manhã fresca de outono, enquanto ouso vozes distantes, um cão, prometo, com gratidão transbordante, já que viver é espetáculo: fiz isso o melhor que pude quando jovem e farei assim, viver a melhor vida que me couber, como velha.

Por

Magda Castro

Brasília, DF, 16 de abril de 2026.

 

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