sábado, 18 de abril de 2026

ROMANCE

A maca subia e descia vertiginosamente os corredores brancos. Os carregadores se divertiam discutindo o trajeto: por aqui pintaram por estes dias; sim, o caminho claro me levaria para um exame no subsolo. Um mundo no submundo, eu também me divertia em pensar nos tantos filmes de ficção cientifica que havia assistido. Chegamos. A maca foi enfiada numa sala mais fria que o polo norte e já estavam prestes a ligar os equipamentos, atenção, emergência! Fui retirada num segundo e colocada na parede de fora até que uma paciente em estado grave fosse examinada.

Foi aí que o revi: sentou-se junto aos maqueiros e começaram a falar de tudo enquanto a enfermeira que me acompanhava ajudava alguém do outro lado. Fiquei quieta, deitada, ouvindo partes da conversa. E logo fui içada novamente pra máquina que leria meus "pensamentos" de trás pra frente. "Não precisa ficar nervosa: conte até cinquenta e o exame estará pronto". Alguém cochichou pertinho.

Ele ainda ajudou os profissionais a me colocarem na outra maca, ajeitou minha cabeça sob o círculo redondo iluminado e saiu da sala. Mentiu, o moço: não consegui contar até cinquenta. E embarcamos de volta ao quarto através dos corredores brancos, sobe e desce "ladeiras", os carregadores rindo quanto me disparavam nas descidas. "Com medo?" Ele perguntou e me surpreendi que estivesse ali e pendurado aproveitando a carona dos maqueiros: a enfermeira tinha sobrado em algum ponto dos labirintos. "Nem um pouco. Confio."

O elevador pra subir pro mundo real demorou uns dez minutos. Foi quando uma senhora, parecendo íntima, o chamou de doutor. Ele ali, calado, ouvindo o que a mulher dizia até que o elevador chegou. Entramos todos que cabiam e a senhora se espremeu ainda falando: "esse elevador despencou comigo ontem". Caramba, que coisa de se dizer aqui e agora, pensei. Ninguém comentou.

Ela descei antes de nós; e seguimos os corredores impecáveis, os quatro. Foi quando o doutor, não sei o nome ainda, respirou fundo e desabafou: "Não sei o que pensam pessoas assim. Essa senhora maltratou todo mundo no laboratório e acha agora que é íntima."

Fiquei quieta; e ele nos seguiu, pendurado na maca, até a porta do meu quarto. Parecia um garoto de cabelos desgrenhados. 

O revi na UTI após a cirurgia, depois de outro exame. O terapeuta me segurava caminhando. Ele passou jogando ao vendo que o último exame indicou que tudo estava bem; que eu iria para casa logo. Palavras como essa fazem a diferença de um mundo inteiro pra pessoas que passaram pelo que passei. "Obrigada", respondi contente.

De novo no dia seguinte, o vi e ele repetiu o veredicto. Eu sabia que os profissionais diriam a mesma coisa pra todos os pacientes. Mesmo assim, quando ele veio internar alguém na cama em frente à minha, fiquei observando. Perguntei à minha filha: "Você acha que esse médico é muito novo?" "Sim, mamãe, muito novo". Mesmo assim, depois que o vi ter terminado a tarefa, o chamei: "Doutor, como você se chama? "Bruno". "ah!", foi só o eu que disse.

Secretamente, vi se na minha bolsa ainda tinha dos cartõezinhos brancos que costumo entregar a pessoas interessantes com meu nome e telefone. Imaginei o que escreveria para o Doutor Bruno: "Bruno, gostei de conhecer você. Aqui não tem meu telefone, mas o endereço da minha casa. Quando quiser falar mal da vida alheia, ou de Filosofia, venha a qualquer hora. Haverá café quente e pão-de-queijo assando a esperá-lo".

Por 

Magda Castro

Brasília, DF, 18 de abril de 2026.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

OUTONO, OUTRA VEZ

Nesse ano completarão dezenas de outonos que vivo: milagre. Em meus mais arrojados sonhos nunca constou chegar aqui. Me reconhecer velha começou com esforço extra e até recebi conselhos de "deixar essas coisas pros jovens". Ignorei. Sei que posso, sei que consigo, repetia, até há poucos dias. 

Então, reconheci numa tarde sem que nem pra quê: eusinha, velha. Acho que foi porque encarei minhas mãos sinceramente, sem maquiagem. Das mãos, passei pro espelho, melhor, amplieu foto recente e me surpreendi com a imagem da minha mãe. Pensei: essa sou eu, mas foi assim que vi minha mãe um dia. Meu pensamento disparou pros meus filhos: é assim que me veem. Essa sou eu de verdade, hoje.

O coração, entretanto, minha alma, melhor, pulsa mesmo que quicando, com tremenda emoção, quando ainda posso abrir janelas nas manhãs, quando cuido dos vasos de flores, quando recebo mensagens no WhatsApp e até me divirto como é diferente o mundo que vivo agora velha do mundo que vivi jovem. Lembranças do tempo de outrora, intactas e vívidas, tilintam pelo meu mundo atual e ecoam pelas paredes da casa à fora.

O meu tempo de agora, em contagem regressiva, entretanto, insiste em ecoar com força através das coisas cada vez mais valiosas que me compõem agora. Coisas poucas, e cada vez menos: coisas preciosas, cada vez mais.

E, nessa manhã fresca de outono, enquanto ouso vozes distantes, um cão, prometo, com gratidão transbordante, já que viver é espetáculo: fiz isso o melhor que pude quando jovem e farei assim, viver a melhor vida que me couber, como velha.

Por

Magda Castro

Brasília, DF, 16 de abril de 2026.

 

domingo, 12 de abril de 2026

QUEBRANDO CABEÇA

Depois do veredicto do Neurologista ao terceiro exame, parti pro hospital. Recebi a sugestão de retirar o ET do crânio pra não causar problemas futuros. Escolhi data e local: Hospital de Base do Distrito Federal. "Lá é pauleira, mãe, vc vai aguentar?" Se não, qual opção teria? Sem plano de saúde, vender a casa, impossível, com boi na linha? "Aguento"

Pacientemente, calmamente, esperei chegar o momento de ser tratada. E dispensei acompanhante. Mesmo uma noite dormindo em cadeira, mesmo vendo gente morrer, mesmo ouvindo gritos de dor em ambiente extremamente nocivo, fui me resguardando como pude, caprichando na alimentação, na água, tomando certinho os remédios, a princípio os que levei, e sem reclamar nem uma vírgula. Tudo escolhi, assumia a cada momento: vou aguentar. 

Já na emergência começaram exames; três dias depois, internação no terceiro andar: Neurologia. Análises das condições do meu corpo eram feitas três vezes ao dia. Remédios foram reescalonados, exames de todo tipo se multiplicaram, quarto e banheiro limpos todas as manhãs, alimentação apropriada e farta: depois de alguns dias pensei ter me curado.

Entretanto, os profissionais atentos marcaram o dia da cirurgia: foi quando a Carol chegou do sul pra se juntar à trupe local. Só a vi depois que saí pro corredor já acordada da anestesia. Ela e Clara me receberam de volta ao mundo dos vivos, agora, com a cabeça cortada. Eu estava bem, continuei bem até sair dali de volta pra casa, caminhando.

Eduardo, Carolina, Maria Clara, Amanda, Ana trabalhavam na logística pra minha volta pra casa: dedetização, colocação de barras nos banheiros, compra de comida e remédios e muito mais. 

A recuperação relâmpago me rendeu alguns apelidos, sem problema, acabamos nos divertindo com as brincadeiras. E, logo, o mundo voltou a ser o que tinha sido: cada um vivendo a própria vida como escolhas próprias. Com um plus, entretanto: a adversidade fez com que nossos laços de família se estreitassem e o que cada um aprendeu não tem preço.

E, hoje, domingo, o sol disputa o céu com nuvens errantes de outono; há frescor nesse começo da nova estação: e gratidão sem tamanho pela experiência vivida, pelo amor recebido de todas as direções, pela alegria de estar novamente no meu canto da casa tomando o café da manhã. 

Por 

Magda Castro

Brasília, DF, 12 de abril de 2026.