ROMANCE
A maca subia e descia vertiginosamente os corredores brancos. Os carregadores se divertiam discutindo o trajeto: por aqui pintaram por estes dias; sim, o caminho claro me levaria para um exame no subsolo. Um mundo no submundo, eu também me divertia em pensar nos tantos filmes de ficção cientifica que havia assistido. Chegamos. A maca foi enfiada numa sala mais fria que o polo norte e já estavam prestes a ligar os equipamentos, atenção, emergência! Fui retirada num segundo e colocada na parede de fora até que uma paciente em estado grave fosse examinada.
Foi aí que o revi: sentou-se junto aos maqueiros e começaram a falar de tudo enquanto a enfermeira que me acompanhava ajudava alguém do outro lado. Fiquei quieta, deitada, ouvindo partes da conversa. E logo fui içada novamente pra máquina que leria meus "pensamentos" de trás pra frente. "Não precisa ficar nervosa: conte até cinquenta e o exame estará pronto". Alguém cochichou pertinho.
Ele ainda ajudou os profissionais a me colocarem na outra maca, ajeitou minha cabeça sob o círculo redondo iluminado e saiu da sala. Mentiu, o moço: não consegui contar até cinquenta. E embarcamos de volta ao quarto através dos corredores brancos, sobe e desce "ladeiras", os carregadores rindo quanto me disparavam nas descidas. "Com medo?" Ele perguntou e me surpreendi que estivesse ali e pendurado aproveitando a carona dos maqueiros: a enfermeira tinha sobrado em algum ponto dos labirintos. "Nem um pouco. Confio."
O elevador pra subir pro mundo real demorou uns dez minutos. Foi quando uma senhora, parecendo íntima, o chamou de doutor. Ele ali, calado, ouvindo o que a mulher dizia até que o elevador chegou. Entramos todos que cabiam e a senhora se espremeu ainda falando: "esse elevador despencou comigo ontem". Caramba, que coisa de se dizer aqui e agora, pensei. Ninguém comentou.
Ela descei antes de nós; e seguimos os corredores impecáveis, os quatro. Foi quando o doutor, não sei o nome ainda, respirou fundo e desabafou: "Não sei o que pensam pessoas assim. Essa senhora maltratou todo mundo no laboratório e acha agora que é íntima."
Fiquei quieta; e ele nos seguiu, pendurado na maca, até a porta do meu quarto. Parecia um garoto de cabelos desgrenhados.
O revi na UTI após a cirurgia, depois de outro exame. O terapeuta me segurava caminhando. Ele passou jogando ao vendo que o último exame indicou que tudo estava bem; que eu iria para casa logo. Palavras como essa fazem a diferença de um mundo inteiro pra pessoas que passaram pelo que passei. "Obrigada", respondi contente.
De novo no dia seguinte, o vi e ele repetiu o veredicto. Eu sabia que os profissionais diriam a mesma coisa pra todos os pacientes. Mesmo assim, quando ele veio internar alguém na cama em frente à minha, fiquei observando. Perguntei à minha filha: "Você acha que esse médico é muito novo?" "Sim, mamãe, muito novo". Mesmo assim, depois que o vi ter terminado a tarefa, o chamei: "Doutor, como você se chama? "Bruno". "ah!", foi só o eu que disse.
Secretamente, vi se na minha bolsa ainda tinha dos cartõezinhos brancos que costumo entregar a pessoas interessantes com meu nome e telefone. Imaginei o que escreveria para o Doutor Bruno: "Bruno, gostei de conhecer você. Aqui não tem meu telefone, mas o endereço da minha casa. Quando quiser falar mal da vida alheia, ou de Filosofia, venha a qualquer hora. Haverá café quente e pão-de-queijo assando a esperá-lo".
Por
Magda Castro
Brasília, DF, 18 de abril de 2026.
