SOSSEGO
Um dia sonhei viver em casa pequena com uma janela, ou duas, que se abrisse pra mato exuberante. E o som que ouviria seria o do vento, de preferência balançando as folhas das macaubeiras, e dos passarinhos cantando melodias de todo modelo. Dessa janela solteira eu poderia chegar ao céu depois que vigiasse colinas e depois montanhas. E o resto seria silêncio.
E, nessa manhã já passando pra tarde, abro uma janela, de muitas, da casa onde vivo, por décadas, e observo o jardim alagado da chuva da noite passada. Tem plantinhas em vasos brancos; numa parte do ano há muitos tipos de flores, noutra parte há o verde que amo. Vez ou outra descubro perfume, surpresa. Dessa janela posso chegar ao céu se ultrapassar a visão do muro, e percebo pássaros circulando estridentes entre fios e árvores antigas além.
Piso satisfeita as pedras do pátio e checo pragas. Retiro um tomateiro invadindo a amora recém plantada. No vaso de amarílis, as capuchinhas formam tapete, retiro. Sem sol nas raízes amarílis não floresce. A chuva fina me refresca delicadamente, e os sons da rua misteriosamente distanciam. Até os cotidianos pardais calam: ouço silêncio no mundo, e no meu coração.
Brasília, DF, 03 de novembro de 2025

Nenhum comentário:
Postar um comentário