segunda-feira, 9 de março de 2026

...NÃO FOI SEMPRE ASSIM

Todas as manhãs, como ritual ou hábito de oração, envio mensagem pro Jean pelo WhatsApp. Escolho entre as que guardo como especiais e encerro, todas, com "Deus o abençoe, filho amado!" Depois, toco os pês de Nossa Senhora Aparecida e rezo tantos pai-nosso quantos dou conta misturados com ave-marias enquanto arrumo o quarto tentando começar o dia. Ainda rezando, desço escadas equilibrando bandejas, celular, saco de lixo.

Hoje cedo, ao botar o lixo na rua, vi um jovem catando plásticos e latinhas. Já o havia visto antes e, algo me deu vontade de ajudar: puxei conversa. Ele lutava pra pendurar tudo na bicicleta; perguntei se estava bem, e a esposa. Ele se sentiu à vontade, contou estar indo de volta pra Goiás que a irmã iria ajudá-lo a terminar os estudos. Foi daí que ofereci: "Tenho cadernos guardados, se precisar, pode vir buscar depois". Ele consentiu.

Foi por isso que abri de novo armários inertes à procura dos tais cadernos. São muitos de tantos tempos, meus e das "crianças" guardados como lembranças. Dentre eles, havia alguns bons, mas três deles estavam amarrotados, manchados de muitas cores entre tintas, bolor, rabiscos; são do Jean.

Todas as vezes que os pego, vasculho as anotações, os números, os rabiscos, tudo o que pode me indicar o porquê. Procuro os sinais, as provas de como meu filho era, tentando entender, explicar, aceitar. Desta vez, de dentro de um dos cadernos empoeirados achei uma lista de exercícios, parecendo ser de finanças, com o registro do número de aluno do ano 1995. Todas as respostas tinham um C vermelho possivelmente de quando o professor os corrigiu.

Sim, todas as respostas tinham o C de certo; e o nome dele em letas firmes, redondas de mesmo tamanho, claras, bonitas eu diria, estava escrito num canto de página. 

Provas de que era assim o meu Jean.

Magda Castro

Brasília, DF, 09 de março de 2026.