sábado, 27 de fevereiro de 2021

DE JABUTICABAS E OUTRAS VICISSITUDES

É por causa do tempo; tudo culpa dele. Esse gentil fidalgo, não assusta: age em silenciosa quietude e nos cabe vigília se o queremos entender, ou não o perder. Nada se perde, afinal, descubro na altura de meio século de experiências que as coisas se transformam imperceptivelmente quando as estamos olhando, e, repentinamente, quando, por breves momentos, o olhar vaga por outros alvos. A transformação acontece, seguidamente; a percebemos, entretanto, de acordo com a distância que estamos dela.

Vi que algumas coisas mudaram na pequena fazenda do tio que visitei meio tortamente ontem. Tortamente porque eu vinha de outras paragens, de passagem, e não havia me preparado para aquela visita. A casa é a mesma; é o mesmo o matinho duro que acompanha a grama rasteira; isso não mudou. Não, e, ainda são os mesmos o pé de mangas docinhas do quintal da cozinha e os de jabuticabas. Agora, o pomar mudou de lugar e há outra cerca, apesar de que a de agora parece tão velha como a de antigamente. O curral sofreu cirurgia remodeladora completa e foi construído um galpão que parece muito velho, acho, desse não me lembro. Ele não esteve sempre ali?

Lembrança é coisa esquisita: a gente olha o que pode ver hoje, mas a imagem do passado se sobrepõe e daí não há como separar o real do lembrado. Me contento em saber que lembro de coisas que existiram um dia e mesmo que não existam mais, há coisas muito boas também que existem apenas hoje e que fazem desse dia que acontece um dia bom também. Por que não? Não é somente o passado que pode nos trazer doçuras e conforto. O presente de tão eternas coisas sempre diferentes pode trazer alegria; e ainda, de quebra, o doce sabor de ter vivido coisas muito especiais.

Não foi diferente o carinho do tio depois que ele se levantou de um cochilo. Tinha tido visitas por todo o final de semana e o cansaço bateu, claro, domingo de tarde, bem de tarde mesmo, já na penumbra das sombras compridas de noite célere. Ele foi me encontrar ao pé da jabuticabeira para onde corri assim que cheguei. E como antigamente, me misturei ao zumbido de besouros, pernilongos, borrachudos. Como sempre, levei picadas de aranha e ataques em massa de mosquitinhos Maruins.

Enquanto saboreava as deliciosas “pretinhas”, o pensamento pulava de canto a outro e eu esticava o olhar por paragens que não estavam mais ali. Em criança e já mocinha, vinha para os feriados e férias.

Não fui criança fácil: desgrenhada, mal cuidada, ignorante, dava um trabalhão danado à tia para trocar meus lençóis quase todas as manhãs; sim, há também lembranças ruins. Me lembro também de ajoelhar, a noite, sempre que acordava molhada e bater a testa no chão, implorando silenciosamente que aquilo parasse. O médico do colégio disse que eu não tinha doença física nenhuma. Além disso, sentia frio; podia fazer o calor que fosse, dormia com duas cobertas grossas de tear; acho que por isso tenho uma guardada para ser usada na casa da Serra, quando ela mudar de ser sonho para ser real. Mais tarde, já adulta, um Psicólogo sugeriu ser “carência afetiva”, o problema. Rio disso, mudo de jabuticabeira e pergunto pro tio como vai de saúde.

Enquanto ouvia que estava bem, escolhia as jabuticabas maiores, por entre a fartura delas grudadas nos troncos. Falei que tinha maravilhosas lembranças dali: as noites eram mágicas, no sentido literal, porque ele contava história de assombração e a criançada fixava os olhos na luz da lamparina do centro da mesa com medo da penumbra do resto da casa. Ir para o quarto era preciso coragem: passo a passo, com a mão em concha para evitar que lufada fantasmagórica de ar entrasse por uma das grandes janelas, apagasse a língua de fogo e nos deixasse aos caprichos das almas penadas. Mas ao redor da chama, ainda na mesa, havia sempre cada um a seu tempo, ou mingau de milho verde e pamonhas ou peneiras de pipoca, uma de doce outra de sal. Meu tio ria de mim; era minha vez de contar histórias.

Relembro que em meio à criançada comendo pipoca e ouvindo histórias de arrepios e sussurros as noites de minha infância não eram noites vazias. Seja pela comida saborosa da tia, de panelas fumegantes transbordando de comidinhas cheirosas, seja pela especial sensação de aconchego e proteção, aquele sítio foi um dos paraísos entre os quais tive o privilégio de crescer. Amei com todas as forças de meu tão tenro coração as pessoas que faziam parte daquele mundo: tia, tio, primas; que, lamentavelmente, hoje estão dispersos em razão de vicissitudes que acontecem a todos nós.

Naquele lugar eram sagrados os passeios à mina d’água, a travessia do Marmelada, as caminhadas poeirentas até a porteira. Eu não tinha muita habilidade com os animais, tinha medo deles ao contrário. Um dia, estávamos catando macaúbas pelos pastos; éramos quatro meninas. As vacas foram soltas do curral depois da ordenha e, acho que porque estávamos fazendo muita algazarra, uma delas veio bufando diretamente pra nós. Foi aquela cena de “salve-se quem puder!” voou menina pelo pasto todo e me sobrou o rumo da cerca do terreiro. De madeira, em ripas sobrepostas, a cerca deveria ter umas cinco tábuas que galguei usando apenas os pés. Como um trapezista, acho que minhas mãos estavam ocupadas com os cocos ou o vestido porque não lembro de usá-las para me segurar enquanto escalava as tábuas e pulava, segura, do outro lado. A vaca ficou lá decepcionada, sozinha, olhando pra mim. Logo depois, as meninas se reuniram, tremendo que nem varas verdes, embaixo do mesmo pé de manga da porta da cozinha. Lembranças que contei, rindo, pro tio nesse domingo entardecente.

Voltando pra cidade logo depois, cada passo que dei rumo à saída foi saboreado; não havia o que lamentar, descobri, eu estava ali, e meu passado junto; ainda me voltei umas duas vezes olhando a casa e o quintal de longe. O que havia de mais novo era um cimentado ao redor do pé de manga, mas tiveram o cuidado de deixar os balanços, agora um pouquinho mais modernos, pendurados nos galhos antigos. Ah! Esse está lá, murmurava baixinho enquanto me prometia fazer mudas de suas sementes quando as mangas estivessem maduras... já estava escuro quando abri a porteira do alto; essa diferente, amarrada com uma corda de modelo que não existia naquele tempo. Meu irmão encostou o carro para que as visitas passassem na frente.

Se aproximam as chuvas, mas ainda não chegaram de verdade, então, há poeira ainda. Foi gentileza dele já que o jipe iria levantar uma nuvem suja por cima do carro menor. A mesma estrada, penso, a mesma curva para a esquerda e daríamos na cidade... Engraçado como me lembro dos limites: à esquerda o caminho era conhecido, à direita, entretanto, não me atrevia a imaginar aonde ia dar; infinita incógnita; aterrorizante caminho estranho, e sobre o qual jamais perguntei coisa alguma.

Agora é que me bate essa reflexão: aonde esse caminho me levaria se tivesse seguido por ele? Bem, acabou-se o tempo de aventurar a descobrir caminhos ainda que esse que tomo agora parece menor, mais estreito do que me lembro. Antigamente o matagal se fechava no alto das passagens dando calafrios nas espinhas infantis.

Ah! Isso, no fundo, não importa. O que importa é que o caminho que escolher, de agora em diante, seja aquele que me levará aonde quero ir; fui pensando pela estrada afora enquanto ainda sentia na boca a doçura das jabuticabas. 

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

DESPEDIDA DE SOLTEIRO

A festa do tipo “boca livre” com fartura de comida boa e cerveja gelada comemora quarenta anos de casamento dos pais de quatro jovens ali nascidos e criados conhecidos companheiros de fugas para o rio, de galinhadas na madrugada, de times de futebol e vôlei, passeios pelas redondeza.

O salão está apinhado de amigos, parentes, políticos, fazendeiros, celebridades, anônimos, todos parte da família. As janelas até o teto alinhadas às longas paredes escancaram a noite quente do alto janeiro. Mesas redondas estão decoradas com vasos de mini rosas naturais e botões coloridos. Toalhas de cetim adamascado seguem as cores das tiras largas penduradas do teto ao chão imitando tenda de circo.   

A banda toca músicas de todos os tipos e casais tentam acompanhar a sucessão de diferentes ritmos, numa mistura de risos, batidas de instrumentos e pisadas no chão encerado. Um som mais romântico leva para a pista maridos e esposas; a balada traz dançarinos que começam em duplas e terminam em bandos desarticulados, e felizes. Qualquer música mais conhecida faz com que a pista se transforme num pandemônio de pessoas se divertindo; juntos, dançam sem constrangimento ou coreografias avós, pais, filhos, primos. Sempre que uma música termina, as palmas fazem eco com gritos de "Mais! Mais!".

Vez ou outra, aparecem brincadeiras como as danças do chapéu e da vassoura. De feltro marrom escuro com fitas em azul e vermelho terminando em bolas douradas tilintantes, o chapéu passa de cabeça em cabeça. O homem que o recebe cede a dama com quem dança; alguns fazem de conta que estão zangados e todos saem rindo e dançando.

Na dança da vassoura, as mulheres escolhem o par; proibido recusar convite. Dessa vez, até as mais recatadas puxam para o salão jovens e cavalheiros, casados ou não, de preferência, um "pé de valsa".

Comida boa, salão lindamente decorado, música inebriante, bebida com fartura e o calor da noite não deixam espaço para que ninguém fique de fora da festa.

Recostado a uma das pilastras redondas, um rapaz moreno de olhos verdes encravados no rosto de ossos grandes e salientes observa o burburinho segurando displicentemente uma tulipa alta pelo meio de cerveja gelada. Veste camisa polo marrom de riscas horizontais, o que quase lhe confere um ar ameaçador. Parece tomar fôlego das brincadeiras quando dançou sem parar; e repensa detalhes. Em especial, o da moça que o convidou: esguia, rosto com suaves marcas, encantadoras, de acne, longos cabelos negros cheirando a flores, vestido azul com pequenas estampas geométricas indecifráveis à meia-luz. Os braços roliços e fortes seguraram com firmeza o rapaz nos muitos passos e o casal pareceu outro enfeite da festa, tanto, que os demais dançarinos deram espaço e evitaram incomodá-los com vassouras ou chapéus por várias danças.

O rapaz se lembra que se separou dessa dama apenas no intervalo pedido pela banda; e do olhar direto e firme que recebeu em silencio na despedida. Sorri para si: “tão bom isso tudo!” Contente, dá voltas pelo salão lotado. Cadeiras sendo arrastadas, murmúrios de cansaço, pessoas se abanando, risos: o jovem abraça e beija mulheres ou crianças, faz elogios, dá tapinhas nas costas dos homens. Circula desenvolto: está em seu lugar, aqueles são os seus amigos e aquele é o mundo ao qual pertence.

Anunciam o discurso do marido agora casado de novo. Emocionado, o homem sobe ao palco e já embalado pela cerveja, fala, ri e chora. A cada frase, gritos simulam vaias para disfarçar a emoção. Ele chama a esposa, se ajoelha, pede-lhe perdão e jura amor eterno. Com olhos brilhantes, ela o acolhe num abraço roliço e enrugado parecendo conter toda a paz do mundo; todo o abrigo do mundo.

A emoção quase vira lágrimas, então, um dos filhos passa a apresentar os nomes dos presentes e dos ausentes: todos que fazem parte da história de amor que agora se renova. Um ou outro convidado também parabeniza os novamente recém-casados até que alguém chama para o bolo; a banda volta ao palco e a festa recomeça.

O rapaz moreno é envolvido por matronas e moçoilas que o conhecem como bom dançarino. Enquanto a música toca, mal consegue surrupiar alguns copos de cerveja. Por duas dessas vezes, vislumbrou a moça de azul dançando com um rapaz bem vestido parecendo muito à vontade. Mais tarde, no caminho para o banheiro, ao sentir o perfume de flores, ouve uma voz: "você é casado?". A resposta e firme, rápida: "não"; e a voz desaparece.

Distraído pela alegria, pelas brincadeiras e flertes, o jovem fica na festa até o ultimo acorde. Sai sozinho dirigindo o carro por ruas vazias. Se sente feliz tanto pela festa boa quanto pelo final de noite silencioso.  “Ah, vou dormir até o meio dia amanhã; tão bom estar de folga!” Lembra-se que tinha telefonado para o pai dizendo que viria e esse disse que ficasse a vontade: ia pescar. Perguntou da família “Não, vou sozinho.”

Sim, não falou pra ninguém em casa sobre a festa: queria se divertir, fugir da rotina. Estava cansado de problemas, queria ficar livre naquele fim-de-semana para fazer o que bem entendesse.

Rastros de luz do amanhecer pontuam o céu quando o rapaz para o carro em frente à casa do pai. Os faróis fazem contraste com o resto da escuridão: a penumbra não lhe permite ver o vulto que se aproxima; sente perfume de flores. Ainda no carro, recebe um beijo no rosto e outro na boca. O vulto se esgueira ate pequena varanda; espera em silêncio que o rapaz trêmulo estacione o carro e encoste o portão.

A porta da casa é aberta por dois corpos de lábios colados com pausas apenas para respirar; do lado de dentro, um pé a arremete com estrondo ao portal.

O sexo, o primeiro, acontece entre a mesinha de centro e o sofá duro e quente em meio ao lusco-fusco da manhã. Não há tempo para pausa: os lábios continuam percorrendo corpos nus e suados entre gemidos e gritos. A segunda vez acontece na cama mais próxima. Num frenesi, tudo se repete muitas vezes até que adormecem exaustos.

“Que calor!’ Pensa o jovem acordando. “Será que é meio dia já?”. Se lembra imediatamente da noite anterior: vê que está sozinho na cama estreita. Raios de sol atravessam fenda discreta da janela basculante entreaberta. Recosta-se aos travesseiros suspirando satisfeito ao lembrar-se das últimas horas, em detalhes.

Talvez tenha cochilado mais um pouco porque num dado momento ouve o pai chamando da porta: "Filho! Acorda! Seu carro ficou a noite toda com os faróis ligados e talvez dê problema para ligar. E olha! Não demore! São quase seis horas da tarde e como você tem que ir embora hoje, vai ter que viajar à noite, coisa que não gosto”.

O rapaz se surpreende e isso o desperta de vez. Toma banho, enfias as roupas de qualquer jeito na mala pequena, daquelas para coisas de academia de ginástica e só ao colocar a escova de dentes na abertura lateral é que vê o bilhete.

O coração dispara: "a mulher da minha vida me deixou o telefone!". Agarra o papel minúsculo, já imaginando como faria para se separar da mulher com quem vive e começar nova vida ao lado daquela deusa. Para aproveitar mais a alegria da boa expectativa ainda abraça o pai e toma café; coloca a mala no banco de trás do carro. Com o bilhete numa das mãos, apaga os faróis e dá partida ao motor: a reação parece uma pessoa com raiva; ele entressorri.  Desliga, pisa e solta o acelerador, gira de novo a chave: o motor ronca forte.

Enquanto deixa o carro recarregar a bateria, tranca a porta e, devagar, como a espreitar do buraco de fechadura, desdobra o papel. Não compreende imediatamente. Dobra de volta, devagar, o bilhete, se recosta no banco, respira fundo: não acredita nas palavras escritas. Se esforça para ler de novo e só então assimila a mensagem: "Obrigada pela minha despedida de solteira!".