Foi porque descobri que a torneira do meu banheiro também estava pingando. A da cozinha, pingando na bucha, antes da bica, eu já sabia; a do banheiro social também porque é enorme, aberração moderna que desperdiça muita água: eu não tinha essa consciência quando a comprei, mas a do meu banheiro, pingando, pingo a pingo, longe, não tinha visto ainda.
Vi enquanto passava o fio dental nos dentes, sentada na beirada da banheira, enquanto ouvia a chuva fina, a primeira da estação. De onde estava também dá para ver o buquê de flores amarelas da árvore que todo ano desabrocha, duas ruas abaixo, acima dos telhados. Milagres, que não sei por quanto tempo ainda teremos: a depredação dos biomas está desequilibrando os ciclos naturais e pode muito, muito depressa, acontecer nos vermos à frente de uma catástrofe planetária que modificará para sempre a vida confortável que temos agora.
Milagre ainda termos noites e dias, secas e chuvas, coisas nascendo, penso, enquanto observo o espaço de tempo que o pingo leva para cair na pia. Até que não está demais, não, mas não custa um apertozinho, e quem sabe, observar melhor daqui em diante. E observar todas as outras torneiras da casa. E como temos torneiras, para que tantas? Progresso, que foram comemoradas, em todos os cantos, a chegada da luz elétrica e da água encanada. Olha que piada, encanamos a água. Cana não é coisa de bandido? Pois é, encanamos a água para nosso conforto. E esse agora é a facilidade com que jogamos a fonte da vida no esgoto e a misturamos aos nossos outros restos.
Foi por isso que dilui o detergente numa vasilha daquelas de sorvete que a gente sempre guarda. Serviu, então, para lavar copos, pratos e talheres acumulados na noite anterior e no café da manhã. Fui ensaboando pouco e enxaguando com pouca água, uma que usava num copo servia para lavar o outro e pensando na higiene, nas bactérias, talvez não estivesse lavando corretamente. Me lembrei do pedaço de um filme, desses do chamado circuito alternativo, que cá entre nós, tem nos brindado com verdades dolorosas de mundos tão diferentes do nosso; esse, mostrando um menino que, resgatado de um campo de refugiados da Etiópia, ao tomar uma chuveirada, tentava desesperadamente evitar que a água que lavava o próprio corpo escorresse pelo ralo. A enfermeira teve que pedir ajuda para segurar o garoto que se batia feito doido, achando que a vida dele é que estava sumindo no buraco do chão. Trauma, um mundo diferente, a carestia criando dores incompreensíveis: amostra do que pode acontecer a todos um dia?
Então, lavando parcimoniosamente a louça, me lembrei de deixar um balde sob a calha do telhado da varanda. Eu tinha recolhido as fezes da cachorra e jogado, com pesar, um balde de água limpa para a primeira lavada, mas o resto ia deixar que a chuva fizesse. Não ia jogar mais nem uma gota para lavar o chão. Pensei que sempre que faço isso, colocar uma vasilha para recolher a água da chuva, essa vai embora. Complexo de achar que o mundo tão enorme depende de coisas que faço ou penso ou acredito. E será que não?
Só que a chuva parou mesmo e o domingo que prometia ser de novidade, com a chuva tamborilando, se tornou quente como nos dias anteriores, apesar do inverno, mas a varanda continuou como estava: empoeirada. Prefiro assim do que gastar mais água limpa.
E era cedinho, estava tonta por um gole de café. Levei um tempão para fazer, medidas duas xícaras, para não estragar porque estava sozinha em casa nessa manhã. É que a bomba da garrafa térmica se recusou a funcionar, tentei arrumar e desisti. Tirei a tampa toda para me permitir tirar o café de lá. Não estava doce como gosto, mas uma gotinha de adoçante resolveu e o saboreei com um pão de queijo dormido que deixei sobre a chapa quente. Ficou bom, o problema foi que depois que terminei de comê-lo vi que tinha um cascudinho preto rondando a vasilha transparente que a minha filha tirou do carro com o quitute. Para onde ela vai, a gente arruma lanche porque com as dores de estômago que tem sempre, se descuidar ela não come e piora. Aquele pão de queijo, e ainda com uma fatia de mussarela dentro, deve ter rodado uns dias pela cidade, bate daqui bate dali, e veio parar nas minhas mãos agora cedo. Jogá-lo no lixo estava fora de cogitação.
Mas observei o bichinho rodear a boca da travessa pequena enquanto pensava o quando de porcaria se come: vi umas fotos das comidas da China na Internet. Daí peguei aquela coisinha nas mãos para observar melhor o que era, tão insignificante. Imóvel agora, auto-defesa, ele não deve ter sentido a força mortal de meus dedos.
Ainda pensei, aquelas fotos mostrando as comidas típicas do outro lado do mundo podem até ser montagem, mas a verdade é que se come muita porcaria por aí, inclusive nessas nossas paragens, e engraçado, nossa civilização, será que de civilidade? come bicho também só que uns maiores, talvez o tamanho faça a diferença? O ser humano é mesmo uma coisa maluca! É só ter um hábito diferente que é ruim, ignorante, selvagem. Comer esse ou aquele bicho será que tem diferença? É sinal de maior ou menor moral ou grandeza ou civilidade comer bicho grande ou pequeno? Que nada! É hipocrisia, eu diria.
Brasília, DF, 31 de agosto de 2008.
domingo, 31 de agosto de 2008
ALGUÉM DE PASSAGEM
A casa era pequenina, diferente dos corações que moravam nela: felizes, tinham tudo. Ou quase: faltava, para ser lar completo, algo especial. Isso faltava mesmo, porque vez ou outra era preciso companhia para a viagem, opinião sobre coisa ou gente, conselhos nas encruzilhadas. As pessoas ali esperavam por alguém assim, para ajudar a viver a vida boa que tinham.
Numa noite, ele chegou. Sem bagagem, sem promessas: ficaria por uns dias. Ficou até que lhe desagradou certo jantar: se foi, atrás de outros sabores. O que importava? Era tão pequeno aquele lugar!!
Ficou um tempo longe, experimentou o que bem quis. Um dia lembrou do carinho e dos cuidados: pediu perdão, pediu para voltar. Foi recebido com alegria, que bom que voltava: estava perdoado. Chegava outra vez sem bagagem, sem promessas: não poderia contribuir muito, tinha a vida inteira para viver, daria ali, o que pudesse, nada além disso.
Se envolveu em alguns planos, não tinha mesmo o que fazer, poderia ficar, por enquanto, desde que pudesse ter sempre a porta da rua aberta. Emprestou uma coisa ou outra: deveria receber tudo de volta porque aquela não era a sua vida.
Foi até feliz, aproveitou bem: conforto, carinho, e liberdade. Era bom, mas melhor ainda eram festas, viagens, sair com amigos e beber, ah, tudo de bom! Voltava, depois de tudo aproveitado até a última gota.
Pai de família, marido dedicado, não estava em seus planos, mas poderia ir levando assim e ver aonde tudo ia dar. Ficaria, enquanto não encontrasse “coisa” melhor. As condições era não ter aborrecimentos, não fazer nada além do que queria, não olhar no olho e não discutir profundezas. Ficaria enquanto fosse só lago sereno, sabem como é, não era seu verdadeiro lar, não era obrigado a nada.
Não precisava, outras pessoas cuidariam das partes chatas, dos consertos desagradáveis, das maiores obrigações ou responsabilidades. Ajudava, sim, vez ou outra, mas também guardava.
Guardava, se guardava, guardava carinho, o próprio coração. Não precisava nem dizer “obrigada”, já estava prestando grande favor em ficar. Promessas? Talvez tivesse que fazê-las algum dia, em outro lugar, para alguém melhor.
Encontraria esse alguém a qualquer momento. Ia aonde e quando queria, havia tantas oportunidades: amigas, colegas, irmãs de amigos, parentes, conhecidas e desconhecidas. Brincava com uma aqui, flertava ali, uma aventura que durou semanas, outra anos ou uma de única noite. Era um homem livre: viagens, diversão, rodas de amigos e só depois o ninho à espera, e, ainda, sem promessas.
Pena que o dia delas chegou: depois de muitos anos, é verdade, fez até esforço razoável, que não se negue, afinal, era preciso esperar a hora certa: quando juntada a própria bagagem. Então, um dia, lhe pediram "amor e carinho”. Chegou a hora: teria que encarar; era sua vez de distribuir, retribuir, de se comprometer, ou não.
Teria que decidir se acompanhava aquelas pessoas pela vida que ainda seguiria; era a hora da aproximação, de colocar luz nas fendas. Então, decidiu: tinha contribuído muito, tinha dado o que podia, não havia mais nada a oferecer. Aqueles seres lhe sorviam todas as energias, o pressionavam, o olhavam com olhos que quase podiam atravessá-lo. Não suportaria ficar: não poderia ver o fundo daqueles lagos, era forte demais. “Não”, foi a decisão e, como estava apenas de passagem, partiu.
Por
Magda R M de Castro
Brasília, DF, 17 de agosto de 2008.
Numa noite, ele chegou. Sem bagagem, sem promessas: ficaria por uns dias. Ficou até que lhe desagradou certo jantar: se foi, atrás de outros sabores. O que importava? Era tão pequeno aquele lugar!!
Ficou um tempo longe, experimentou o que bem quis. Um dia lembrou do carinho e dos cuidados: pediu perdão, pediu para voltar. Foi recebido com alegria, que bom que voltava: estava perdoado. Chegava outra vez sem bagagem, sem promessas: não poderia contribuir muito, tinha a vida inteira para viver, daria ali, o que pudesse, nada além disso.
Se envolveu em alguns planos, não tinha mesmo o que fazer, poderia ficar, por enquanto, desde que pudesse ter sempre a porta da rua aberta. Emprestou uma coisa ou outra: deveria receber tudo de volta porque aquela não era a sua vida.
Foi até feliz, aproveitou bem: conforto, carinho, e liberdade. Era bom, mas melhor ainda eram festas, viagens, sair com amigos e beber, ah, tudo de bom! Voltava, depois de tudo aproveitado até a última gota.
Pai de família, marido dedicado, não estava em seus planos, mas poderia ir levando assim e ver aonde tudo ia dar. Ficaria, enquanto não encontrasse “coisa” melhor. As condições era não ter aborrecimentos, não fazer nada além do que queria, não olhar no olho e não discutir profundezas. Ficaria enquanto fosse só lago sereno, sabem como é, não era seu verdadeiro lar, não era obrigado a nada.
Não precisava, outras pessoas cuidariam das partes chatas, dos consertos desagradáveis, das maiores obrigações ou responsabilidades. Ajudava, sim, vez ou outra, mas também guardava.
Guardava, se guardava, guardava carinho, o próprio coração. Não precisava nem dizer “obrigada”, já estava prestando grande favor em ficar. Promessas? Talvez tivesse que fazê-las algum dia, em outro lugar, para alguém melhor.
Encontraria esse alguém a qualquer momento. Ia aonde e quando queria, havia tantas oportunidades: amigas, colegas, irmãs de amigos, parentes, conhecidas e desconhecidas. Brincava com uma aqui, flertava ali, uma aventura que durou semanas, outra anos ou uma de única noite. Era um homem livre: viagens, diversão, rodas de amigos e só depois o ninho à espera, e, ainda, sem promessas.
Pena que o dia delas chegou: depois de muitos anos, é verdade, fez até esforço razoável, que não se negue, afinal, era preciso esperar a hora certa: quando juntada a própria bagagem. Então, um dia, lhe pediram "amor e carinho”. Chegou a hora: teria que encarar; era sua vez de distribuir, retribuir, de se comprometer, ou não.
Teria que decidir se acompanhava aquelas pessoas pela vida que ainda seguiria; era a hora da aproximação, de colocar luz nas fendas. Então, decidiu: tinha contribuído muito, tinha dado o que podia, não havia mais nada a oferecer. Aqueles seres lhe sorviam todas as energias, o pressionavam, o olhavam com olhos que quase podiam atravessá-lo. Não suportaria ficar: não poderia ver o fundo daqueles lagos, era forte demais. “Não”, foi a decisão e, como estava apenas de passagem, partiu.
Por
Magda R M de Castro
Brasília, DF, 17 de agosto de 2008.
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