sexta-feira, 9 de abril de 2021

AS ESTAÇÕES E EU

 

Me sinto tão tola

por amar tanto o céu

a chuva redentora, o verde do mundo,

a flor gloriosa, linda, pequena, sim, maior que eu.

 

Me sinto quase triste

quando chega o outono

quando a grama se acinzenta

quando as árvores se desfolham.

 

Me sinto tão fria

no inverno me escondo

me recolho, me afasto

das tempestades do mundo.

 

Me sinto quase linda

Eis então a primavera

nem mais frio nem quente ainda

chuva nova, verde renascendo

ar gostoso de respirar.

 

Me sinto tão quente

no verão tempo de areia, de mar

estação de sol escaldante

de deixar a paixão brotar.

 

Tal folha solta sigo o vento

o calor do verão, a despedida do outono

o silêncio do inverno, o frescor da primavera.

Me sinto tão tola por ser feita de estações!

 

Magda Castro, em setembro de 2000.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

 

CENAS DE RUA

Domingo cedo de imprevisto solão mesmo não sendo mais verão. É outono, de comecinho, ainda chove, menos sim ainda há chuvas, mas o sol chegou pra estourar mamonas. Foi perscrutando o céu pra ver se havia nuvens porque dependendo de haver ou não eu decidiria o que fazer do dia que cismei por alguns minutos escondida detrás da persiana aberta discretamente.

O portão da casa da frente foi aberto e se segue algazarra de pessoas discutindo o caminho pra pista de ciclista no Sudoeste. Um casal e uma garota, ouvi os adultos chamando Heloisa. Nome lindo demais, heroína de romance e bela também a menina. Treze anos? Falando Mamãe e Papai como se tivesse deliciando a doçura do mundo rindo da mãe embaraçada com o guidom da bicicleta, a mocinha pedala com ares de bem entendida. O homem se aproxima segurando a própria bicicleta acalmando a mulher ajeitando o acento. “Experimenta agora, vê se melhorou”.

A mulher de roupa preta bem justa se encarapita e sai pedalando pelos dois lados da pista; aposto que cai, não caiu. A menina ri cristalinamente. O homem espera que as duas mulheres avancem na frente e as segue decidido. Fico olhando os três desaparecerem no fim da rua enquanto as risadas vão virando sussurros.

Ao abrir a janela, finalmente, ouvi outras vozes. Uma criança? Aparecem no meu campo de visão, um garoto montado em bicicletinha e uma mulher de sombrinha protegendo o menino que resmungava do arranjo. “Tem que ser assim, o sol está quente demais!” Comecei a rir sozinha: o dia mal começara e já havia me deparado com tais cenas: de bicicletas, de gente e de amor; do que senti o dia seria.

Magda Castro

Brasília, DF, 1 de abril de 2021.