quarta-feira, 16 de julho de 2025

CATANDO ARROZ
Nesses tempos despretensiosos, coisas mudam depressa demais. Eu tinha certeza que era cuidadosa com as coisas do dia a dia, botava tudo no lugar, achava tudo até no escuro. Hoje cedo prestei mais atenção num ocorrido e tive que admitir que já não sou mais a mesma.
Há dois dias, peguei o pote de milho de pipoca e intentei colocar na pia perto do fogão. A panela larga estava quase quente com a manteiga estralando delicadamente. Não sei porque cargas d`água, de repente procurei o milho assim já quase passada da hora de botar no fogo, e cadê? me virei pra ver se estava no balcão mais longe e dei um passo. A sapatilha laranja de pano, outra herança das que minhas filhas não querem mais, mas boa sem tanto pra aquecer os pês nesses dias gelados estralou. Olhei pra baixo e lá estavam os grãos, também laranjas, espalhados no piso branco, encardido, registre-se. Me diverti com tantos laranjas descobri de uma vez só ali; e a panela estralando. Desliguei. Levei um tempo gigante pra limpar tudo e finalmente estourar a pipoca.
Ai, hoje ali por volta do meio dia, tomei café da manhã às 10 e 30 hs, resolvi adiantar o almoço e botar a panela elétrica pra ir tomando conta do arroz. A mistura seria frango com quiabo; o frango foi congelado temperado, então, ´tava fácil. 
Me distraí fazendo não sei o quê, e grãos brancos deslizaram em cadência pro chão, pra debaixo do fogão, da fruteira, pros armário e geladeira do outro lado da cozinha. Uai, Dona Magda, desde quando vc inventou de derrubar de tudo o quanto há? O Alexandre passou na hora e disfarçou o riso num comentário que não me lembro e foi pro quarto.
Peguei o arroz com cuidado, fui pra frente da luz do jardim catar os ciscos, isso me lembrando do tempo em que catava cascas de arroz na peneira, lavei e botei na panela. Depois de almoçar, ao limpar melhor a cozinha, descobri junto aos grãos de arroz remanescentes, grãos de milho de pipoca. Esses foram pro lixo, contrariada não acredito que o milho viraria pipoca se cozidos junto ao arroz.

Magda Castro
Brasília, DF, 16 de julho de 2025.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

DA DOR

Não costumo falar de dor, tantas todos temos acho perda de tempo como não conheço vocabulário pra falar apropriadamente dela. É que em tempos de, meu coração só consegue ficar em slow motion, respiro devagarinho, me aquieto num canto esperando passar. Quanto mais dói, mais muda fico. Desligo músicas, me envolve em meus braços, fecho olhos. Me coloco em modo semimorta ou em casos mais dolorosos ou choro em potes ou me calo dolosamente. Se me veem quieta, calada, o riso disfarçado, está doendo. Se me perguntar talvez eu confesse ou fale de outra coisa.

Entretanto, em eventos insuportáveis poderei soluçar e se achar, aceito um braço. Do tipo calado também, caridoso o bastante pra me ouvir repetir o mantra que me maltrata. Possivelmente isso acontecerá uma vez, duas no máximo, porque de outra vez que doer a mesma dor eu já terei me acostumado com ela e continuarei sendo eu quietinha num canto suportando até passar. Porque não conheço palavras para descrevê-las. E tal conhecimento dispenso.

Brasília, DF, 06 de fevereiro de 2025.