quinta-feira, 23 de março de 2023

 

Desconstruindo minha vida

Foram três caixas hoje. As enfileirei sobre as pedras quebradas da calçada dos fundos, de livros. Nãos são as primeiras nem as últimas. No barzinho, na estante grande do corredor, nos armários do hall, em gavetas e até nas cadeiras da mesa da varanda há livros pra jogar fora. E revistas de coleção, as Arquitetura e construção e as Cláudia são as mais numerosas. E tem embrulhadas no pacote, restos das Grande Hotel de minha avó que minha mãe guardou, e que guardei por minha vez. Cai na besteira de encher as caixas antes de coloca-las na rua. Tive que arrastá-las pela casa todas. Claro que em manhãs de quinta-feira quando o caminhão de coleta de recicláveis passa há, muitas vezes, vários tipos de material para serem coletados. Não eram só caixas que se alinhavam ao meio fio. Hoje tinha até o material velho que foi trocado da caixa de descarga; essa foi grande vitória: deu trabalho por anos, vamos ver se resolvei dessa vez.

Pensei que podia fotografar para mostrar a minhas filhas, principalmente a que vive mais pero de mim que tem me estimulado a jogar fora coisas inúteis. O policiamento é ferrenho e tenho isso como meta também principalmente depois do dia que ouvi “não vou guardar suas revistas velhas quando você morrer, mãe”. Respondi que podia jogar tudo fora, tudo que fosse meu. E hoje vários pacotes de partes de mim foram descartados pelo mundo afora.

Tenho feito muito disso por esses dias. E parece que as coisas estão se multiplicando ao invés de serem reduzidas, hoje mesmo achei uma teia de aranha enorme. Puxei um criado, velho também, do canto da janela pra enxugar pingos da chuva forte que caiu de repente. A teia fazia voltas criativas pela madeira e trançava um bordado discreto tão bonito que tive pena de passar o pano. Não evitei um sorriso bege quando pensei que haveria outros lugares onde estariam sendo construídas teias tantas são as tramas que observo.

E vai ainda que jogar coisas fora não é tarefa fácil. Hoje cedo mesmo separei com cuidado cadernos e livros, e provas antigas de meus filhos, guardados que poderiam recontar as histórias de cada um. Tomei o cuidado de retirar os plásticos das capas, os encapava todos e botava etiquetas identificando, filho, colégio, ano, muitos. Achei duas provas da mais velha, uma de matemática e outra de desenho, as duas com 3 de 10. Outro sorriso, e essa menina ontem me pregou peça pelo WhatsApp dizendo que tinha perdido a função de analista. Imediatamente passei mensagem de coparticipação na tragedia pedindo pra ela explicar o que aconteceu. Mais tarde veio o kkkkkk pra dizer que ela perdeu a função pra ser promovida a chefe. Pronto, o susto foi apenas encenado e todos nos voltamos ao grupo pra felicitar, aprovar, e coparticipar da alegria. E as duas provas nota 3 foram pro caminhão de recicláveis hoje cedo. Eu tenho, tinha porque estou me esforçando, mania de guardar lembranças dos meus filhos, medo de a memoria falhar o que é pesadelo pra quem passa pela essa idade que vivo. Medo de desconstruir um mundo mágico que vivemos nessa casa. Mesmo que tenha havido teias de aranha, vivemos bem na maior parte do tempo, sei por mim e por eles, sei porque o meu coração acredita assim. E isso não é passado: foi tudo magia quando vivi com todos os meus amores nessa casa.

Se os cadernos velhos e livros desatualizados estão sendo cuidadosamente separados para reciclagem, minha vida de esforços e trabalho para cuidar de quem amo vai ficando pelos bordados de minha memória, ainda, e essas farão parte de mim mesmo que todos os cômodos por aqui sejam desmontados. Corre em meu sangue, faz parte de minha respiração, meu coração bate, ainda, apenas pelos meus amores porque são eles os que morarão para sempre em mim esteja eu rodeada de traças ou me espreguiçando em manhãs milagrosas em algum lugar do universo. Porque é deles que sou feita, de meus amores. E esses, gire o mundo como quiser, não serão jamais, de nenhuma forma, empacotados para encher o caminhão da quinta feira..

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

OUTRO LADO DA PALAVRA ESCRITA OU FALADA, OU O MESMO

Sobre escrever textos se sabe muitas coisas e uma delas é que tudo que é escrito fica guardado, quem sabe, atrevidamente, para sempre. Escrevo cotidianos, minúcias, pequenices que me encantam. Conto de meu canto, dos meus causos, dos meus contos. Nada grandioso nem visto a olho nu, ou a coração nu, digo melhor. Gosto de escrever sobre o café da manhã, o almoço, falo da chegada ou da partida, de flores se abrindo, ah, como gosto de escrever de flores. Gosto de contar histórias, prefiro as verdadeiras porque não tenho grande imaginação de inventar histórias falsas. Mas gostaria de escrever o outro Harry Potter, apesar que estava pensando dias atrás que a literatura tem isso de recriação: textos eternos que muitas vezes jazem em prateleiras poeirentas são descobertos por alguém com imaginação bastante criar dali um mundo novo. Acho por isso a literatura eterniza a vida.

Bom demais saber de gente que viveu há milhares de anos e foi feliz o bastante pra pensar em registrar a própria história e essa agora está aí encantando, ou desencantando, pessoas de toda parte. Acho que por isso todos nós podíamos escrever sobre nossas vidas. Há alguns anos, limpando um guarda-roupas de minha mãe que tinha sido de minha avó descobri uma folha de papel amarelado. Me surpreendi com a biografia de minha avó escrita por ela mesma em estilo trôpego escolar. Uai, não era propriamente biografia já que o texto todo mal ocupava metade da página, mas trazia os dados de local e data de nascimento, nomes dos pais, nome dos filhos e endereço da época. Amei ler, guardei a relíquia com carinho e vez ou outra releio pra me lembrar dos que viveram antes de mim e que por isso vivo hoje. Então, escrevo dessas desimportâncias até pensando que uma pessoa qualquer no futuro leria sobre elas.

Escrever, ou contar histórias, sobre minha vida, estranhamente, me dá a sensação de dizer de um olhar tão meu e, penso que, talvez, esteja contribuindo ou partilhando importâncias. Se importante ou não para o que me lê, ou ouve, não sei ao certo, mas para mim é delícia quando releio o escrito há anos. Isso é o que queria dizer sobre o valor da palavra escrita: dizem de pequenas histórias sem importância que se escreve sobre aspecto ou outro sem importância. Ocorre que relendo meus textos descubro que o valor da desimportância daqueles tempos tem importância sem medida hoje. Para mim, especialmente, mas quem sabe, importante também para alguém que esteve entre os personagens daquele tempo tão tão distante.

Magda Castro

Brasília, DF, 23 de fevereiro de 2023.