É seca. Estrala até, a grama sob os pés. Isso quando ainda resta grama: montículos amarelo-cinzas misturados à terra vermelha do Cerrado, esse agora adormecido, entregue à sorte do tempo. Seco é também o ar, na verdade ele nem está lá. Sumiu como a umidade preciosa, mas olhos esperançosos rumo ao céu infinitamente azul os procuram. Vez ou outra a poeira das eternas construções embaça a abóbada anil que vigia do alto.
Seca também é a paineira que se recolhe para dormir seu sono de proteção. A vemos perder as folhas, depois as flores milagrosas irrompem; essas dão lugar aos ninhos de plumas que se espalham pelas calçadas, avenidas, telhados displicentes. E seca de novo. Espera, adormece, aguarda novo tempo, mas, por enquanto, é inverno.
Os ipês fazem a mesma coisa com a diferença de que são mais esguios, mas florescem primeiro. Esses estréiam o inverno enfeitando as tesourinhas do Plano Piloto, as alamedas centrais das avenidas e os redutos onde sobrevivem amostras do Cerrado, por enquanto.
Por agora, o inverno traz vento, silvando pelas janelas fechadas, pecado. Fechar tudo atrapalha a luz, consolo de quem tem sede, de quem que ir lá fora e espiar o mundo, vê-lo reviver, acompanhar o renascimento. Esse ainda demora, mostra o calendário, vez ou outra consultado para preparar o coração, para respirar fundo e encontrar ânimo para esperar mais um pouco.
Porque Brasília ainda está de inverno. Recolhida em seu costumeiro silêncio parece flutuar amparada pelas suas imensidões. De qualquer ponto se vê ao longe, se vê o tempo registrado em esculturas brancas açoitadas pela poeira. Serão lavadas mais proximamente às chuvas, mas até lá, perdem o brilho de espetáculo: a cidade dorme.
Não tudo, vi ontem quando fui ao Plano. Fui jogar baralho com umas amigas: todas matando o tempo do inverno, da espera. Não dá para fazer muita coisa na cidade crestada sob o vento poeirento. Clube nem pensar, que a pele racha em minúcias. Caminhar no parque exige mais que energia: é uma questão de genuína coragem. Até dá para andar, devagar, sonolentamente, o circuito de quatro quilômetros porque é ao redor do lago dos patos. É mais úmido, portanto. É também onde as árvores mais antigas dão sombra. O circuito de seis quilômetros é mais árido, mais aberto, exige maior esforço. Já o de dez quilômetros vira cinqüenta, ainda mais que sofreu perda enorme no inverno anterior: todo o bosque de eucaliptos decenários foi derrubado. Estavam caindo com as ventanias costumeiras do planalto descampado, risco para os visitantes. A água mineral poderia ajudar, não fosse o gelo da água. Cristalina, convidativa, serena... e fria. Não dá para encarar. Shopping tem muito, diferente do saldo na conta do banco. Definitivamente, jogar baralho é a melhor opção, por agora.
Então, fui jogar Buraco. Ainda de férias, já de volta de curta viagem, o recesso do trabalho ainda não terminara. Reunir as amigas, reunir pratos de diferentes quitutes, reunir opiniões e... curtir Brasília no inverno.
Para chegar à quadra onde mora a amiga da vez, fiz o caminho do Eixo Monumental. Assim que sai da pista que separa o Sudoeste do Cruzeiro Velho, dei de cara com dois ipês amarelos. A repentina visão me surpreendeu: dois buquês, um grande e um médio, arrombando a vista costumeira. Impávidos, sem ciência do assombro que causavam, os hospedeiros das flores cor de ouro irrompiam por entre a paisagem de cinzentos. Quase não acreditei no que via, portanto, me esforcei para olhar de novo depois que pus o carro na pista de acesso à avenida.
O bom é que depois do quase susto dos ipês exuberantes reparei também as patas-de-vaca: já floriam. Essas, ainda tímidas, mostravam com suas flores ora brancas, ora lilases, ou quase azuis que vencendo a carestia, adiantavam a primavera à Capital; apesar de ainda ser inverno.
A Pirâmide do Mausoléu de JK refletia a brancura esparramada sobre gramado cortado rente, mas meio cinza. Vi, contente, que há árvores bem verdes na lateral da avenida. No meio, espécies de todo tipo, frutíferas inclusive, principalmente mangueiras e amoreiras, se misturam, verdejantes e faceiras se balançando ao vento. Recentemente foi que descobri que todas as árvores dão flores, pode? E perfume. E aqui no Cerrado, o inverno é o tempo de explodirem em cachos ou isoladas, perfumando o ar raquítico. Em pequenas caminhadas, feitas vez ou outra, descubro diferentes formatos e cores dessa proteção verde da capital brasileira. Em cada bosque da cidade há o tributo a uma espécie diferente: representações de todo o Brasil na arte brasiliense.
Uma espécie que parece vencer o tempo impiedoso é a dos bougainvilles. Nos jardins plantados entre o Conic e o Setor Hoteleiro Sul, há boas amostras. Já são grandes o bastante para formarem árvores e não faz diferença a inclinação do terreno: surpreendem quando se para no semáforo antes da Rodoviária e se olha para a direita: as flores matizam rosas, amarelos, laranjas e vermelhos: sobem a colina e se juntam à imensidão do horizonte.
Olhar o vão central da Esplanada quase pode ser triste porque nesse há mais paineiras, por ora ressequidas e mudas, mas há muitos ipês. Desses alguns já explodiram em pomos e cachos só que cor de rosa, principalmente os mais próximos ao Congresso, depois da Catedral. Ignoram a falta d’água e insistem em alegrar a desolação ao redor. É, milagre tem todo dia mesmo.
Mas nessa tarde poeirenta e desértica, de luz tilintante, segui pela L2 Sul. Minha amiga mora nas quatrocentos. Observei mais bougainvilles, e, imaginando quanto resistentes são, me perguntei: com esse nome em francês será que vieram da Europa? Como é que podem estar tão exuberantes a ponto de se espraiarem, em pencas de flores, até pelo chão terroso nessa tarde de inverno seco? Mistério que não estudo plantas, mas até que é uma idéia pesquisar como se adaptam ao ambiente inóspito da capital federal: poeira, secura, ventos constantes. Me consolo pensando que, talvez, seja porque é assim só no inverno. E inverno, bem, como todas as outras estações, também não dura para sempre. Graças a Deus.
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 08 de agosto de 2008.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
quarta-feira, 30 de julho de 2008
NEM SÓ DE ROSAS E TULIPAS VIVEM AS ABELHAS
Seria uma questão de estética? Talvez não porque estética é confundida com moda, vez ou outra. Prova disso é a Mona Lisa, padrão de beleza um dia, mas não na maioria das sociedades contemporâneas. Seria estética ou moda homens usando perucas nas cortes medievais da Europa? Isso existe ainda nos tribunais da Inglaterra. E para que serve estética ou moda, usar peruca, vestir chita ou seda? Para a salvação da humanidade? Possivelmente não.
Qual é a importância do padrão? A quem interessa o modelo estético atual de beleza? Peles e ossos num esqueleto prestes a desabar num vento mais forte; cabelos domados a ferro e fogo; músculos falsos são úteis? Decididamente não. Ao contrário, é angústia para os que, embotados pela mídia massacrante, se vêem fora do modelo, em conseqüência, fora dos grupos sociais originalmente criados para atender às necessidades de seus componentes.
Referências sociais, sim, são úteis porque os grupos, agora imensos, precisam de certos padrões, só que apropriados, uma vez que viver onde as pessoas são todas iguais deve ser sufocante, além de cercear a criatividade nata do ser humano e enfraquecer almas originalmente puras. E fortes.
Ser forte talvez tenha sido a condição, no passado, para selecionar as espécies que habitariam a Terra. Mas hoje, qual é a utilidade do padrão, febre no mundo? Preservar a espécie? Creio que poucos pensam nisso inebriados pelas conquistas e invenções que tornaram o século XXI o tempo das galáxias. Só que padronizar pessoas impede a capacidade crítica necessária a novos olhares, esses que nos permitem nos reconhecer graciosamente diferentes.
Natureza, propriamente dita é assim: formas, cores, sons, cheiros, seres e elementos de todo tipo que, sabiamente, padroniza para que todos sejam diferentes. Todos têm lugar e valor e a diferença é fator de sobrevivência. Contrariamente, o ser humano quer padronizar tudo. Exemplos disso são as gôndolas de supermercado: tudo esteticamente luzidio, perfeito, igualmente colorido sejam abobrinhas, tomates ou laranjas. O que está torto, arranhado ou com uma pintinha só serve para fazer volume no fundo do tabuleiro. É o império da estética padronizadora: fica por cima a fruta ou o legume, ou a pessoa, que se encaixa no modelo, estranha forma de seleção.
Isso lembra uma visita que recebi no sítio uma vez: a mulher foi muito sincera quando confessou não estar gostando do lugar cheio de árvores tortas, cada uma de um jeito ou tamanho, da poeira, dos morros, da estradinha estreita, dos cheiros de bicho, dos vaga-lumes e mosquitos e de outras coisas. Completou que havia gostado mais de outro lugar com filas de palmeiras iguais, trilhos asfaltados, gramados aparados, casa bonita. Isso é prova do gosto que a estética vigente criou nas pessoas: retas, luzes, cores, a ordem, o igual.
A diversidade, perfeita no equilíbrio de diferentes formas, foi derrotada: o homem artificial dorme em paz sobre o concreto que substituiu a terra sagrada. Não haveria problema, ou, pelo menos, ele não cresceria mais tanto, se fosse contido o avanço sobre os últimos santuários da Terra transformando-os em ruas que não abraçam as chuvas e prédios indiferentes às rotas dos pássaros. O homem avança, derruba e muda tesouros milenares cujo fim era o bem e proteção: tudo deve ser reformulado, enretado, colorido mais fortemente porque a cor natural é tão sem graça. Qual é o propósito disso? Me recuso a aceitar a resposta tradicional: o capitalismo. Não creio mais que seja tão simples assim.
Uma resposta digna da genialidade humana seria que essa gana de transformação é para mudar o destino da vida: a morte. Talvez seja para que a morte se perca entre tantos rostos iguais, se confunda e acabe não escolhendo ninguém. Essa pode ser explicação razoável para a insana determinação em tornar tudo tão igual, em que nada se salva: rios são desviados, montanhas são aplainadas, florestas viram desertos; são eliminados genes, sementes, valores. Para quê?
No Cerrado, tão desamparado e belo Cerrado, se extinguem velozmente as reservas naturais: as árvores tortas, os arbustos de folhas ásperas, os muricis, as cagaitas, as pitombas, as flores pequeninas e rasteiras. Tantas maravilhosas espécies são substituídas pelas intermináveis e retilíneas fileiras de eucaliptos ou pelos oceanos de soja ou sorgo, coisas tão estranhas a esse ambiente e cujo objetivo passa longe de suprir as necessidades locais. É quase irônico quando perseguidores da alta produtividade “limpam” a terra vermelha para plantar estranhos espécimes que não se reproduzem, não geram semente. Será possível continuar a vida sem as sementes?
Enfim, o homem modelou a comida, a vida, os valores, as escolhas. Escolha é importante quando significa o direito de optar pelo que mais convém. Nesses tempos de canais uníssonos de informações, não se tem acesso a todas as opções. Acostumado ao padrão divulgado, o homem tem a ilusão de que está escolhendo. Não está não: está sendo conduzido e não escolhendo. Não está refletindo sobre o caminho do futuro, o está percorrendo às cegas.
Fico imaginando, como exemplo, esse fantástico Cerrado se aqui fossem plantadas somente flores padronizadas em laboratórios, tão iguais em sua exuberância, tão lindas, tão perfeitas. Ah! Mas seria lindo ver tudo tão igualzinho até alcançar o horizonte! Sim, mas é lindo também o Cerrado, abrigo de seres tão diversos onde, apesar da seca castigando, a caraíba ainda arranja um resto de energia para florescer e alegrar o cinza ao redor até que tudo renasça.
E as abelhas, de muitas espécies, umas que gostam das flores da lixeira, outras das flores da congonha, outras da pixirica, da gomeira, da mimosa como ficariam? Será que teriam escolha? Ou seria uma questão de estética? Qual é realmente útil para a humanidade como um todo, a abelha ou a estética? E, seria essa uma questão de escolha?
São muitas perguntas. Muitas podem ser respondidas, creio. E lembrando um amigo respondo a mais uma pergunta: como achar as respostas? Observando a natureza, observando a natureza. Ela tem as respostas, todas elas. Pelo menos enquanto ainda existirem abelhas.
Magda R M de Castro
Brasília – DF, 30 de julho de 2008.
Qual é a importância do padrão? A quem interessa o modelo estético atual de beleza? Peles e ossos num esqueleto prestes a desabar num vento mais forte; cabelos domados a ferro e fogo; músculos falsos são úteis? Decididamente não. Ao contrário, é angústia para os que, embotados pela mídia massacrante, se vêem fora do modelo, em conseqüência, fora dos grupos sociais originalmente criados para atender às necessidades de seus componentes.
Referências sociais, sim, são úteis porque os grupos, agora imensos, precisam de certos padrões, só que apropriados, uma vez que viver onde as pessoas são todas iguais deve ser sufocante, além de cercear a criatividade nata do ser humano e enfraquecer almas originalmente puras. E fortes.
Ser forte talvez tenha sido a condição, no passado, para selecionar as espécies que habitariam a Terra. Mas hoje, qual é a utilidade do padrão, febre no mundo? Preservar a espécie? Creio que poucos pensam nisso inebriados pelas conquistas e invenções que tornaram o século XXI o tempo das galáxias. Só que padronizar pessoas impede a capacidade crítica necessária a novos olhares, esses que nos permitem nos reconhecer graciosamente diferentes.
Natureza, propriamente dita é assim: formas, cores, sons, cheiros, seres e elementos de todo tipo que, sabiamente, padroniza para que todos sejam diferentes. Todos têm lugar e valor e a diferença é fator de sobrevivência. Contrariamente, o ser humano quer padronizar tudo. Exemplos disso são as gôndolas de supermercado: tudo esteticamente luzidio, perfeito, igualmente colorido sejam abobrinhas, tomates ou laranjas. O que está torto, arranhado ou com uma pintinha só serve para fazer volume no fundo do tabuleiro. É o império da estética padronizadora: fica por cima a fruta ou o legume, ou a pessoa, que se encaixa no modelo, estranha forma de seleção.
Isso lembra uma visita que recebi no sítio uma vez: a mulher foi muito sincera quando confessou não estar gostando do lugar cheio de árvores tortas, cada uma de um jeito ou tamanho, da poeira, dos morros, da estradinha estreita, dos cheiros de bicho, dos vaga-lumes e mosquitos e de outras coisas. Completou que havia gostado mais de outro lugar com filas de palmeiras iguais, trilhos asfaltados, gramados aparados, casa bonita. Isso é prova do gosto que a estética vigente criou nas pessoas: retas, luzes, cores, a ordem, o igual.
A diversidade, perfeita no equilíbrio de diferentes formas, foi derrotada: o homem artificial dorme em paz sobre o concreto que substituiu a terra sagrada. Não haveria problema, ou, pelo menos, ele não cresceria mais tanto, se fosse contido o avanço sobre os últimos santuários da Terra transformando-os em ruas que não abraçam as chuvas e prédios indiferentes às rotas dos pássaros. O homem avança, derruba e muda tesouros milenares cujo fim era o bem e proteção: tudo deve ser reformulado, enretado, colorido mais fortemente porque a cor natural é tão sem graça. Qual é o propósito disso? Me recuso a aceitar a resposta tradicional: o capitalismo. Não creio mais que seja tão simples assim.
Uma resposta digna da genialidade humana seria que essa gana de transformação é para mudar o destino da vida: a morte. Talvez seja para que a morte se perca entre tantos rostos iguais, se confunda e acabe não escolhendo ninguém. Essa pode ser explicação razoável para a insana determinação em tornar tudo tão igual, em que nada se salva: rios são desviados, montanhas são aplainadas, florestas viram desertos; são eliminados genes, sementes, valores. Para quê?
No Cerrado, tão desamparado e belo Cerrado, se extinguem velozmente as reservas naturais: as árvores tortas, os arbustos de folhas ásperas, os muricis, as cagaitas, as pitombas, as flores pequeninas e rasteiras. Tantas maravilhosas espécies são substituídas pelas intermináveis e retilíneas fileiras de eucaliptos ou pelos oceanos de soja ou sorgo, coisas tão estranhas a esse ambiente e cujo objetivo passa longe de suprir as necessidades locais. É quase irônico quando perseguidores da alta produtividade “limpam” a terra vermelha para plantar estranhos espécimes que não se reproduzem, não geram semente. Será possível continuar a vida sem as sementes?
Enfim, o homem modelou a comida, a vida, os valores, as escolhas. Escolha é importante quando significa o direito de optar pelo que mais convém. Nesses tempos de canais uníssonos de informações, não se tem acesso a todas as opções. Acostumado ao padrão divulgado, o homem tem a ilusão de que está escolhendo. Não está não: está sendo conduzido e não escolhendo. Não está refletindo sobre o caminho do futuro, o está percorrendo às cegas.
Fico imaginando, como exemplo, esse fantástico Cerrado se aqui fossem plantadas somente flores padronizadas em laboratórios, tão iguais em sua exuberância, tão lindas, tão perfeitas. Ah! Mas seria lindo ver tudo tão igualzinho até alcançar o horizonte! Sim, mas é lindo também o Cerrado, abrigo de seres tão diversos onde, apesar da seca castigando, a caraíba ainda arranja um resto de energia para florescer e alegrar o cinza ao redor até que tudo renasça.
E as abelhas, de muitas espécies, umas que gostam das flores da lixeira, outras das flores da congonha, outras da pixirica, da gomeira, da mimosa como ficariam? Será que teriam escolha? Ou seria uma questão de estética? Qual é realmente útil para a humanidade como um todo, a abelha ou a estética? E, seria essa uma questão de escolha?
São muitas perguntas. Muitas podem ser respondidas, creio. E lembrando um amigo respondo a mais uma pergunta: como achar as respostas? Observando a natureza, observando a natureza. Ela tem as respostas, todas elas. Pelo menos enquanto ainda existirem abelhas.
Magda R M de Castro
Brasília – DF, 30 de julho de 2008.
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