Eu subia a pista que circunda a cidade, a EPIA – Estrada Parque Indústria e Abastecimento. Vinha da Faculdade onde dou aulas agora, nesse dia, de manhã; ainda não era meio-dia. A pista estava em reforma, o asfalto cheio de remendos e galões enormes nas laterais de modo que o lugar de passar era um corredor estreito, mais que de costume: por isso a reforma. Dava pena ver as árvores com galhos quebrados, ou com raízes de ponta cabeça, mas tinha delas ainda inteiras. Na terra revolvida dava pra ver os traços das rodas do trator que mostrava a tentativa de evitar tirar o arbusto vivo e florido. É porque Brasília tem disso nas suas áreas verdes: as árvores e arbustos são combinados para darem flor em cada época do ano, então, sempre tem flores pelas alamedas. E com a obra, agora, estavam maltratando muitas apesar da tentativa de não.
Bem, mas essa era uma manhã de final de verão, já seca demais, de sol ainda causticante, iluminado então o dia, como candelabro de mil lâmpadas; acho que foi por isso que percebi o galho. Parecia avançando sobre a pista, tenho medo de checar e descobrir que esse vai ser um dos que vão abaixo com a reforma da ponte. Tenho a impressão de que aquela árvore ainda está lá tão perto é porque será a última a dar lugar a um pedaço de novo viaduto. Mas eis que o galho, quase atravessando a faixa de desaceleração, se atrevia a abrir-se em flores, rosas, no meio da poeira, do calor e do caminho remendado. Abria-se em abraço desavergonhado, escancarado e seguro; ignorando, completamente, o destino tão cruel que o aguardava.
O trânsito era rápido e me distraiu de observar maiores detalhes, mas, acho que foram meus instintos, vi as flores. Imediatamente meu cérebro começou a calcular que dia do mês era, a estação, a época do ano. Talvez seja porque quando dou uma aula, estudo durante horas, e fico com aquilo tudo na cabeça até ter que mudar para outro tema, de outra aula. Não sei se isso é normal: professores darem aulas de tantos assuntos, apesar de que no meu caso, são só três e dois são muito parecidos. Mas que estação era, afinal? Consegui mudar o foco dos pensamentos.
Não podia ser das flores, das paineiras avisando para se preparar para a primavera, só que o galho estava lá, não inventei isso, queria entender, queria uma explicação. Bem, depois de certa idade a gente descobre que se parece demais com os próprios pais, eu, especialmente, me pareço muito com minha mãe; quando falo – e escrevo – palavras tão nossas, de nossos lugares, lá dos confins do interior.
Mas sei que minha cabeça cheia sempre com as questões de que deu certo ou não, entenderam alguma coisa ou não, o que melhorar para a próxima aula e mesmo assim o galho florido me arrastou para outros píncaros e eis-me, já distraída, portanto, querendo me certificar porque o tempo já permitia galhos em flor.
Não achei que estava certo, o tempo. Flores agora? Outono? Primavera? Fim de verão, afinal, consegui me situar e o galho foi ficando pelo retrovisor do carro. Ainda me distrai arranjando justificativas para as flores temporonas – como dizia minha mãe – e me aproximei de casa.
Foi aí que descobri outro enigma: ou já era mesmo estação de flores ou todas as paineiras da rua resolveram dar uma de temporonas e florir fora de época. Uma das grandes, na esquina da minha rua, começava a se enfeitar de um lado, silenciosa, discreta diria, sem alarde; com seus galhos rumando para o infinito, se vestia para a nova estação. Se o tempo de verão, outono ou inverno, e quem sabe, a primavera chegou para elas, isso era do direito delas. No meu caso, levei mesmo o susto de imaginar o ano voando, as estações se confundindo e a vida acontecendo. Não esperava que essas suntuosas árvores florissem agora, me acostumei com elas esbanjando esplendor no auge da seca como que esnobando os outros seres que murchariam.
Que seja, que venham, as grandes paineiras cheias de flores. Foi delas a decisão, aproveito eu se quero, portanto, quero e aplaudo. Mesmo porque vi logo, logo que elas florescem em fila pelas ruas onde passo. Talvez eu não as tivesse visto antes, preocupada que ando com coisas tão menos bonitas; que desperdício! Ainda bem que as cachopas, quando todas as paineiras estiverem tomadas por inteiro com suas belezuras, estarão enfeitando todas as visões, mesmo as dos mais distraídos.
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 19 de março de 2009.
quinta-feira, 19 de março de 2009
terça-feira, 10 de fevereiro de 2009
AINDA É VERÃO
Ainda é verão. E me espanto com isso porque depois que a gente volta à rotina, depois das férias, parece que a estação muda. Muda para o inverno, o outono, no máximo, então é uma dó a gente ter que trabalhar, cumprir tarefas, com a luz do dia lá fora. Tem chuva, que essa é a estação delas, mas os dias de sol quente são muitos também, então é verão mesmo; e ainda vai ser por mais de um mês.
É verdadeira gangorra esse tempo de verão em Brasília: amanhece nublado, até pelo horário doido de ser seis horas no relógio e cinco da manhã de verdade; abre solão pela hora do almoço, fica quente à tarde, tão quente de rachar mamona; pode também fazer uma tarde de vento fresco, calmo que sobrevoa os papéis na mesa, que balança as roupas dependuradas e as barras de vestidos; ou pode ser vento forte que arremessa as portas às soleiras estrondando sustos reboando no coração; ou pode cair um temporal que prende todo mundo pelas salas, pelas escolas, pelo comércio.
Noite dessas, tentei enganar meu sono. Sou dorminhoca e pego no sono fácil, mas nessa madrugada, já passada muito da meia noite, banquei a insistente e fiquei em pé, no escuro, espreitando a chuva pela janela do meu quarto. Uma paz sem descrição invadia o mundo, não havia pessoas nem carros até onde eu podia ver, a enxurrada carregava papéis e folhas para os bueiros fazendo marulhas por causa da chuva grossa.
No contraste com as luzes dos postes, reparei que os pingos dançavam, empurrados pelo vento de tempestade. Relâmpagos iluminavam intensamente me fazendo quase parar de respirar, mas teimava em colar meu rosto às frestas – não abria tudo porque queria o sossego de espreitar sem ser vista, além de estar de pijama – e cortinas de água esmigalhada se levantavam devolvendo a enxurrada ao céu. Observei muitas vezes a água do chão voltar para o alto e encontrar os pingos que desciam com força; daí é que as marolas engrossavam e nada que aparecia na frente escapava.
À luz dos relâmpagos, e também à luz dos postes, essa mais franzina, os elementos se mostravam com todo seu esplendor e eu me divertia em saber que ninguém mais assistia, pelo menos era o que achava. Os telhados, as folhas, o asfalto já estavam limpos mostrando um só quadro de limpidez e frescura. Ah! fazia frio... mesmo sendo verão, e talvez em razão disso. O verão dos contrastes, dos elementos mais vívidos, de mais energia circulando, de maior movimento. Talvez por isso a chuva despencasse do céu em galopes e se arrebentava nas calçadas, nos telhados, nas copas das árvores. Depois corria rua abaixo, lavando, lavando, lavando. Eu estava mesmo com vontade de dormir, mas, mesmo com as pernas doendo, ali, em pé, insisti em ficar para poder sentir o vento frio no rosto, para os respingos cheirosos lavarem também a minha pele, para ouvir a quietude do mundo e observar, de perto, as intrigas da natureza. Fiquei cismando com o céu desabando à minha frente, então comecei a cochilar. Só assim fui me deitar e não sei dizer se o chuvaréu continuou por muito tempo depois.
Nesse momento, é tarde de verão. O sol clareia o mundo apesar de a chuva ter dado o ar da graça pelas duas da tarde. Foi forte porque a água ainda escorria pelas valetas quando sai da livraria; eis porque não a percebi antes. Estiada a chuva, o sol voltou e ainda se esparrama, ilumina e aquece, até demais, apesar de os relógios marcarem quase sete da noite. Pois é: é verão e as invenções dos homens ainda não puderam controlar a luz do sol. Ih! Caramba! Será que não estou falando besteira? E a energia solar como é que fica?
Na verdade, não fica. A gente cata um pouco dessa energia, usa, mas depois ela se evapora de volta ao universo, assim, controlá-la a gente não controla não. Sei porque acabei de olhar o terraço de porta escancarada: um ventinho suave entrou pela saleta. E agora há nuvens se movendo na abóbada azul e talvez ainda tenha chuva antes que se faça noite inteira. Mesmo porque quando comecei a escrever não era nada disso que queria dizer, mas é uma coisa: toda vez que começo um texto as palavras vão me empurrando por aqui, por ali, e dá nisso, ó! Tudo bem, talvez seja o efeito desse verão inconstante, com o qual me pareço tanto: me alegro ou me entristeço por uma bobagem, quer dizer, brilho ou fico enfumaçada à toa, basta um ventinho de nada ou uma nuvenzinha de menos ainda. Apaga, ilumina, esquenta, esfria... coisa pouca, tem 'portância não! Dá licença, vou ali, ver se é sol ou chuva lá fora... é chuvisco. Começa discreto como que envergonhado; fecho janelas, a porta do terraço e me ponho a ouvi-lo, esperando que seu cheiro me alcance. A luz do dia não acabou totalmente, se acinzentou apenas... É que é verão, ainda é verão.
Por Magda R M de Castro
Brasília, 10 de fevereiro de 2009.
É verdadeira gangorra esse tempo de verão em Brasília: amanhece nublado, até pelo horário doido de ser seis horas no relógio e cinco da manhã de verdade; abre solão pela hora do almoço, fica quente à tarde, tão quente de rachar mamona; pode também fazer uma tarde de vento fresco, calmo que sobrevoa os papéis na mesa, que balança as roupas dependuradas e as barras de vestidos; ou pode ser vento forte que arremessa as portas às soleiras estrondando sustos reboando no coração; ou pode cair um temporal que prende todo mundo pelas salas, pelas escolas, pelo comércio.
Noite dessas, tentei enganar meu sono. Sou dorminhoca e pego no sono fácil, mas nessa madrugada, já passada muito da meia noite, banquei a insistente e fiquei em pé, no escuro, espreitando a chuva pela janela do meu quarto. Uma paz sem descrição invadia o mundo, não havia pessoas nem carros até onde eu podia ver, a enxurrada carregava papéis e folhas para os bueiros fazendo marulhas por causa da chuva grossa.
No contraste com as luzes dos postes, reparei que os pingos dançavam, empurrados pelo vento de tempestade. Relâmpagos iluminavam intensamente me fazendo quase parar de respirar, mas teimava em colar meu rosto às frestas – não abria tudo porque queria o sossego de espreitar sem ser vista, além de estar de pijama – e cortinas de água esmigalhada se levantavam devolvendo a enxurrada ao céu. Observei muitas vezes a água do chão voltar para o alto e encontrar os pingos que desciam com força; daí é que as marolas engrossavam e nada que aparecia na frente escapava.
À luz dos relâmpagos, e também à luz dos postes, essa mais franzina, os elementos se mostravam com todo seu esplendor e eu me divertia em saber que ninguém mais assistia, pelo menos era o que achava. Os telhados, as folhas, o asfalto já estavam limpos mostrando um só quadro de limpidez e frescura. Ah! fazia frio... mesmo sendo verão, e talvez em razão disso. O verão dos contrastes, dos elementos mais vívidos, de mais energia circulando, de maior movimento. Talvez por isso a chuva despencasse do céu em galopes e se arrebentava nas calçadas, nos telhados, nas copas das árvores. Depois corria rua abaixo, lavando, lavando, lavando. Eu estava mesmo com vontade de dormir, mas, mesmo com as pernas doendo, ali, em pé, insisti em ficar para poder sentir o vento frio no rosto, para os respingos cheirosos lavarem também a minha pele, para ouvir a quietude do mundo e observar, de perto, as intrigas da natureza. Fiquei cismando com o céu desabando à minha frente, então comecei a cochilar. Só assim fui me deitar e não sei dizer se o chuvaréu continuou por muito tempo depois.
Nesse momento, é tarde de verão. O sol clareia o mundo apesar de a chuva ter dado o ar da graça pelas duas da tarde. Foi forte porque a água ainda escorria pelas valetas quando sai da livraria; eis porque não a percebi antes. Estiada a chuva, o sol voltou e ainda se esparrama, ilumina e aquece, até demais, apesar de os relógios marcarem quase sete da noite. Pois é: é verão e as invenções dos homens ainda não puderam controlar a luz do sol. Ih! Caramba! Será que não estou falando besteira? E a energia solar como é que fica?
Na verdade, não fica. A gente cata um pouco dessa energia, usa, mas depois ela se evapora de volta ao universo, assim, controlá-la a gente não controla não. Sei porque acabei de olhar o terraço de porta escancarada: um ventinho suave entrou pela saleta. E agora há nuvens se movendo na abóbada azul e talvez ainda tenha chuva antes que se faça noite inteira. Mesmo porque quando comecei a escrever não era nada disso que queria dizer, mas é uma coisa: toda vez que começo um texto as palavras vão me empurrando por aqui, por ali, e dá nisso, ó! Tudo bem, talvez seja o efeito desse verão inconstante, com o qual me pareço tanto: me alegro ou me entristeço por uma bobagem, quer dizer, brilho ou fico enfumaçada à toa, basta um ventinho de nada ou uma nuvenzinha de menos ainda. Apaga, ilumina, esquenta, esfria... coisa pouca, tem 'portância não! Dá licença, vou ali, ver se é sol ou chuva lá fora... é chuvisco. Começa discreto como que envergonhado; fecho janelas, a porta do terraço e me ponho a ouvi-lo, esperando que seu cheiro me alcance. A luz do dia não acabou totalmente, se acinzentou apenas... É que é verão, ainda é verão.
Por Magda R M de Castro
Brasília, 10 de fevereiro de 2009.
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