segunda-feira, 27 de janeiro de 2025

TARDE DE CHUVA IMINENTE

O fim-de-semana foi quente, iluminado, belo. Imaginei que a semana toda seria do mesmo jeito pra confirmar o verão no seu original. Eu ainda estava à mesa tomando café quando as pedrinhas do jardim começaram a se debater. O vento veio me mostrar que o céu azul de cristal que vi quando abri as janelas cedinho tinha se transformado em palco de nuvens descoloridas.

Rapidamente, o dia de segunda-feira de muitas possibilidades se transformara em possível recolhimento, talvez tenha me sentido cansada de repente. Pretendia fazer tanta coisa no meio daquela luz redentora, mas, então, quem sabe em outra tarde, outro dia, outra semana, talvez no outono? dramática, ne? Riso. É apenas uma tarde de chuva como tantas outras; e já as vivi tantas!

Brasília, DF, 27 de janeiro de 2025.

quarta-feira, 20 de novembro de 2024

 MINHA VIDA DE VELHA 3

"VOCÊ É VELHA!"

Aquela cara barbuda estava bem pertinho do meu rosto e falou duas vezes seguidas com contundência: "você é velha! Acho que porque queria me convencer desse fato que sei, muito sei, mas não me importo e vou levando tudo sem me preocupar excessivamente. Daí, o cardiologista barbudo, simpático em todas as medidas, poderia me casar com ele, aplicou terapia de choque. Respondi, nas duas vezes, que tenho orgulho de ser velha, fazer o quê, poderia ser defunto ao contrário. Tenho que gostar de ser velha, pronto.

Ocorre que o choque foi fazendo efeito aos poucos e passei acabrunhada o rosto do tempo de consulta que foi ali por duas horas. Grudada na cadeira, parei de ser feliz como costumo e segui informando tudo de minha vida pregressa prus três profissionais da medicina que revoavam papeis, digitavam informações, me mediam, me perscrutavam. Sim, pode ser que não estava levando a situação a serio, e adiantaria? Ora

Mas me aquietei e deixei que fizessem o trabalho deles. Canseira geral, joelho doendo, chamei o Uber que não apareceu, peguei carona até metade do caminho, segui o resto de ônibus, cheguei em casa debaixo de chuva fina, todas as dores do mundo e o coração e o cérebro em redemoinhos. "Você é velha!", a ladainha se repetiu pelo resto do caminho, pelo dia afora, pela noite adentro. Sim, sou velha. E tenho problemas grandes com meu corpo vivo. Sim, meu corpo está vivo, ainda, nem eu acredito. E meu cérebro tem alguns arranhões e muitas reminiscências. Coração é pela metade, pele e ossos se esforçando, muitas partes espalhando sinais de fumaça. Entretanto, estão vivos, corpo, alma e fantasia. O que importa de quedas, o que importa de pedaços, o quanto importam opiniões e refrões?  Sigo sendo velha, e viva, mesmo que não saiba quanto vai durar. Essa jornada que percorro com todas as bagagens continua e vou percorrê-lo até a última pedra ou flor. 

Por Magda Castro

Brasília, DF, 20 de novembro de 2024.