Dia de domingo, começo de tarde, calor; um mau gosto em tudo, nada servia. Assim, quando a música começou estridente, do outro lado da rua, atrás dos muros da Vila Vicentina, o jeito foi tomar um banho caprichado, botar um perfume e pegar um trocado emprestado com a Mamãe – o salário estava atrasado – e me juntar ao barulho.
Não foi fácil me colocar na porta de saída, abrir o portão, dar cinco passos até a calçada em frente, caminhar mais um pouco, entrar pela portaria pagando cinco reais e levar um carimbo fosforescente no pulso; mas entrei. Havia dito a minha mãe que estava constrangida de ir sozinha, mas ela me animou: “as pessoas são todas simples”. Assim, mesmo em dúvida, fui e logo no começo encontrei pessoas sorridentes me dando boa noite; já estava bom.
Uma vez dentro dos muros do asilo, fui seguindo o primeiro corredor na direção da música e cumprimentando as pessoas com necessidades especiais sentadas às portas de seus cubículos, ao longo do piso vermelho, muito limpo. Limpas também estavam as mesas e cadeiras brancas que salpicavam, como neve, o espaço ao ar livre. O lugar da dança não poderia ser mais simples: um cimentado debaixo de centenário pé de manga.
Um dos pavilhões é composto por casinhas iguais, uma em seguida à outra; o pavilhão da frente, que dá para a rua de entrada, é formado de casas de modelos diferentes. A um canto do pátio onde aconteceria a festa, as barraquinhas de bebidas e as de caldo de mandioca estavam juntas; o palco tinha sido improvisado na carroceria de um pequeno caminhão, mas o som já balançava os galhos empencados de flores. Era começo de final de inverno e o calor já se preparava para entrar em cena.
Quando cheguei, a música era eletrônica, mas depois dois cantores subiram à carroceria e as pessoas começaram a se aproximar. As mesas foram sendo puxadas daqui e dali, casais começaram a circular de mãos dadas, rapazes carregando cerveja; e então, a festa se fez.
Da mesa que escolhi, nem longe nem perto da pista, pude observar os casais dançando: a maioria era de meia-idade, muitos homens de cabelos brancos, muitas senhoras já rechonchudas, “dois prá lá, dois prá cá”. Algumas músicas depois, algumas curiosidades, duas idas às barraquinhas para comprar guaraná e comecei a sentir frio; a razão era o vestido muito leve, de costas nuas; e a quietude. Se estivesse dançando, a coisa poderia estar diferente, mas não aconteceu. Por que? Nem me perco em pensamentos para descobrir; ainda era cedo, me respondi quando pensei em ir embora; a música não me deixaria dormir, de qualquer jeito e a irritação iria aumentar: “não, é melhor ficar mais um pouco”.
Me levantei e fui em direção à dupla de cantores, do outro lado do pé de manga. O calçamento grosseiro e o tamanco de solado redondo me fazia cambalear como se fosse uma canoa ao mar, então, parei à meia distância, em pé, ao lado de bancos de cimento; um estava cheio de homens sentados no encosto.
Um deles me perguntou se eu dançava. Respondi que “arranhava de vez em quando”, coisa mais tola e lá fui eu enlaçada por um braço moreno e sentindo o hálito da latinha de cerveja que ficou no banco. A cerveja estava quente, o moço disse; “o guaraná, não”; o assunto da hora.
De alguma forma, deixei espaço para o moço confessar sua vida depois que perguntou meu nome e respondi o verdadeiro. Falou que era solteiro com quase 40 anos; e depois de duas danças eu já tinha entendido que a culpa era das mulheres. Eu não estava muito inspirada, talvez resto da irritação de mais cedo, e estava com preguiça de raciocinar qualquer coisa mais criativa. Respondi apenas: “você é carinhoso? As mulheres gostam de carinho...” Mais tarde pensei que eu já estava bem crescidinha para andar por aí generalizando minhas concepções: o mundo já não é o mesmo de quando era adolescente.
Por falar em adolescência, assim que vi que a dança não evoluía para o lado que eu assinalava, pedi para parar com a desculpa de ir ao banheiro, agradeci muito e etc. e tal. Ai! Que original eu sou! Bem, mas foi aí que, voltando do banheiro, parei no limite entre a penumbra e as luzes do palco, observando a festa. Foi quando um conhecido de infância, mais de meus irmãos, vizinho de outros tempos, falou comigo de longe. Ah! Cabelos brancos, interessante, pensei antes de reconhecer o rosto conhecido.
Pois é! O rapaz se acercou como se jamais tivéssemos nos afastado e a conversa pareceu começar de onde tinha terminado ontem. No entanto, algumas décadas separavam o último encontro, casual geralmente, na passagem da rua em comum, e o daquele domingo à noite.
Naturalmente, começamos a falar de tudo: da família crescida, do trabalho que finda, a aposentadoria que chega breve, dos sonhos ainda a realizar. Tudo a ver, tudo em comum, parecíamos cópia um do outro; e até conseguimos dançar depois que tirei os tamancos com sola de canoa – sugestão do homem de cabelos brancos com o qual convivi com os cabelos escuros. Juro que me lembrei dele, como antigamente, somente nos primeiros momentos. Depois das confidências nossos mundos pareciam ter se fundido e começamos a nos divertir de verdade.
Ah, “amenidades” foi o assunto que ele pos no e-mail de algumas horas depois, bem, mas deixe-me contar a melhor coisa.
Sei que depois de já estar dançando – desenvoltamente – há algumas horas de pé no chão, já sabíamos tudo o que cada um foi e o que ainda queria ser: muitas coincidências. Eu ria amparada pelo braço ao meu redor e confesso, não contei a ninguém o tamanho daquele gosto para mim; mesmo descobrindo mais tarde, que ele ainda, notem, que ele, ainda, estava casado.
Então, o assunto passou para relacionamentos. Ele perguntou por que eu estava sozinha; comecei a contar a minha história rapidamente porque ela já estava me cansando; o que não evitou que meus olhos se inchassem de lágrimas e eu começasse a fungar muito perto do ouvido do rapaz, até que ele mesmo pediu para eu não chorar. Me recusei a chorar, como já vinha me policiando há algum tempo e, droga, não faria isso, de novo, naquele lugar, e com aquela pessoa.
Acho que esse vexame dei nem por sofrer tanto, mais não, mas pelo que ele me disse quando contei parte do desfecho da minha linda história de amor. Fui sincera contando que amava, com loucura, o homem com quem vivia, mas que não pude mais continuar porque tinha vergonha do que eu tinha me tornado ao lado dele. Foi forte dizer isso, talvez a confiança que senti nele me provocou essa confissão; e mais ainda quando ele me disse: “Caramba! Você gostava mesmo desse homem! E sabe, eu iria ao fim do mundo por uma mulher que me amasse tanto assim!” Foi aqui que as lágrimas abriram caminho por meus olhos até razoavelmente conformados: “que desperdício, né não?” só mesmo fazendo piada para conseguir driblar a emoção.
O momento de confissões não tinha acabado porque, para superar o que sentia, e o que concordo plenamente ser totalmente inadequado, resolvi virar o foco. Perguntei: “Por que vocês homens têm essa mania de deixar as mulheres que os ajudaram a crescer, com as quais construíram histórias fantásticas, que ainda são relativamente atraentes, por outras, geralmente muito mais jovens?”
Ele não pediu que eu repetisse a pergunta: “Você foi sincera comigo e vou ser sincero com você: a maioria dos homens que deixam a esposa por outra mulher pode ser porque teve uma oportunidade, uma chance de viver algo novo; mas se isso não acontecer, sinceramente, está bom de qualquer jeito, com outra mulher é bom, com a nossa mulher também é bom...” Foi surpresa: não foi um discurso machista de alguém que quisesse se mostrar, não foi exibicionismo, apenas a mais cristalina prova de que um relacionamento é algo muito frágil, um barco ao sabor dos ventos.
Ele ainda não havia terminado. Esperou que eu engolisse aquela resposta, que a digerisse e aceitasse: “Outra coisa: considero o meu casamento um bom casamento, mas, se minha mulher me dissesse agora, nesse momento, que eu deveria ir embora, assim como você fez com seu companheiro, não esperaria um segundo. Sairia porta afora, correndo!”
Pois é, talvez seja a rotina, essa eterna desculpa para o casamento que se transformou em “amenidades”, que leva os casais que viverem juntos por mais de vinte, trinta anos, a saírem deixando rastros por toda parte; ou pode ser outra "costumeira" desculpa: incompatibilidade de gêneros. Nossa, essa é mesmo eterna.
Eu acredito ser os sonhos: os diferentes que se desenham ao longo dos anos: ninguém sonha o mesmo sonho junto para sempre: há uma variação que pode ir se alargando pelos anos a fio e um dia você se descobre longe, tão longe do outro, que não dá nem para ouvir o eco. Dá medo isso: essa fatalidade, essa inexorabilidade, essa insustentabilidade do amor, como se ele não fosse suficiente.
Talvez não seja... e talvez por isso a minha resposta ao e-mail do meu mais recente amigo tenha sido: “que bom que a viagem de volta para sua família foi boa...” dava prá ser diferente? Não mesmo, por melhor que tenha sido a noite, por mais “ameno” tenha sido o diálogo, por mais sinceras tenham sido as confissões, não quis "dar pano prá manga". É que depois fiquei com medo de estar parecendo uma “oportunidade”.
Além do que, se aprende sem parar; e a lição dessa noite é que ando com uma mania terrível de fazer perguntas, preciso tomar cuidado: as respostas podem ser muito comprometedoras.
Por
Magda R M de Castro
Abaeté, Minas Gerais, 24 de setembro de 2009.
quinta-feira, 24 de setembro de 2009
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
FANTASIA
Nem havia começado a viagem e ele já tinha se feito notar. Não um notar de espanto, de súbita consciência de sua presença ou da clara informação de que estava ali; não assim. Ela o notou, não no momento: só mais tarde é que percebeu que o havia notado ali, sentado num dos bancos de cimento. É que ela estava a caminho de comprar uma lata de refrigerante e, como se fosse rainha dando reles crédito a súdito insignificante, passou perto de onde ele, e mais outros três, parece, estavam sentados “vendo o bonde passar”, e cumprimentou sem olhar diretamente nos rostos; havia penumbra. Ela queria uma cerveja, mas achou que se exporia demasiadamente na cidade pequena, sozinha, de viagem, e beberia sozinha também. Não, o refrigerante cairia melhor, muito melhor.
O dia tinha sido de pesado trabalho, muito calor e sede implacável. Água não fazia mais efeito, as pernas viraram balão e apenas caminhava por teimosia: os pés dentro do tênis macio latejavam; mas, “descanso durante a longa viagem". Até lá, nos últimos minutos antes da partida, avisou ao motorista que voltaria rapidamente, que não partisse; “volto logo”.
Foi quase chegando à porta do bar de bancos altos em frente a balcão comprido, que ela o viu; mas não viu de verdade. Sentiu; a observavam, muitos olhos, então, para não tropeçar na própria sombra, deu boa noite. Jogou o boa noite pelo cimentado do chão com o propósito de que o cumprimento, era muito educada, os alcançasse. Nem fazia questão de que respondessem, já havia passado por isso antes, mas faria a parte dela e que aproveitassem se quisessem. Responderam, todos eles e talvez por isso, quando voltou, passou calada. Perdeu a fala, parece. Mesmo porque quem estava ali não correria o risco de se sentar ao lado dela no ônibus: estavam longe do carro já funcionando; provavelmente ninguém ali iria embarcar. E ela já tinha sido benevolente ao extremo de dar boa noite; cumpriu, portanto, sua obrigação.
Estava enganada: ele entrou no último instante; depois até do motorista. Trazia uma mala presa ao corpo e só, nada mais. Os cabelos pareciam ralos na frente, talvez tingidos de antigamente, já deixando transparecer brancos. Nada disso era certo; ela não o encararia; estava com medo de alguma coisa. Não poderia explicar, eram instintos, apenas.
Ela se sentou perto de uma senhora que conhecera em outra viagem. Se reconheceram, lembraram os nomes de cada uma e a conversa se atrelou a assuntos tão diferentes quanto a capital para onde estavam indo, o cultivo de minhocas, mudas de flores, filhos, e a impressionante coincidência das duas mulheres quererem estar em dois lugares ao mesmo tempo. “Quando estou lá quero ficar, mas preciso voltar; quando estou aqui, não quero ir, mas tenho que ir”; isso, na primeira parte da viagem, que durou cerca de meia hora.
Numa cidade próxima teriam que embarcar noutro coletivo: esse vindo de muito longe; antes, esperariam na plataforma ventanosa e solitária. Sendo, portanto, meia dúzia de desenganados viajantes, e o espaço de descanso exíguo, as conversas foram se misturando até que alguém chamou a atenção dela: “Estou ouvindo a conversa e vi que você é irmã de conhecidos, fulanos de tal; é verdade?” “Oh” que interessante! Alguém se acerca, sabe quem sou eu...”, pensa a palradora... Dá ao moço o benefício de sua atenção e responde com outra informação: “É verdade, sou sim. E você é o vizinho que bebe da mesma água que meu irmão, não é? Aquela cacimba é antiga, muita gente fala nela.” – “Isso mesmo. Vocês já mandaram analisar aquela água? Deve ter um 70 de pH.” – “É pura mesmo, não é?” – “Sim, parece que tem gosto próprio.” – “É doce...” ela confessa público segredo: os planos de construir naquela serra especial, um chalé...
Ele, o quarto personagem entra na conversa: “Toma muito cuidado que lá tem onça à beça...”. Homem falante 1: “Ainda tem? Já acabaram todas, não?” – Mulher menos falante: “Cruz credo! Onça não...” Ela: “Pode ser, dias atrás pulou uma no capô do carro de um dos meus irmãos; parda, balançando a barrigona; deu dois pulos e estava do outro lado, no mato”. – “Acho...”, pensa, não foi em um lugar mais longe? Ah, que importa, serve para manter a conversa animada.
“E cascavel também; tem muita cobra naquela serra.” Trovejou o quarto personagem, ele – Foi a vez da tagarela, ela, se assustar: “Muita, é?” – “Demais...” Ela pensa na última vez que tinha subido a serra: correu de canto a outro de um espigão varrido pelo vento por séculos seguidos. Nem uma árvore dali contaria qualquer história: não existiam. Só capim baixo, tombado, como se tivesse sido penteado cuidadosamente...
“Nossa, poderia ter sido picada naquele dia”, pensa ela. Não diz por que seria íntimo demais. Ele continua: “você quer vender sua parte lá em cima? Preciso de terras para reserva; lá em casa são oito irmãos e ninguém tem reserva. Sabe como é, né, desmata-se até na beira do rio...” – “Criam gado...” ela pondera. Ele consente e arremata: me vende que depois você pode continuar lá e fazer o que quiser. Só não pode desmatar”. – “Já disse que não tem árvore lá, moço!” – a mulher meio calada avisa: “ela quer é plantar...” Isso! E quem sabe montar um hotel de ecoturismo; daqueles, por exemplo, para quem gosta de silêncio ou de ouvir passarinho. Tem gente de todo jeito, gosto para qualquer coisa; fazer lá no alto, com a vista que aquilo tem, um lugar gostoso para descansar seria ótimo. Falta grana, mas quem sabe o dia de amanhã?
“Não investe nada lá não. Fazenda não dá dinheiro”. – “Não é só dinheiro que procuro”; ela lembra que quase todo mundo fala isso. "será que só o que importa é ter dinheiro?" Ela tem ganas de desafiar essa lei "geral". Pensa: "Gente, é só um sonho; deixa eu sonhar!" e quem sabe o dia de amanhã? Foi pensando nisso que agradeceu a oferta do moço do cabelo indefinido que entrou no ônibus sem mostrar que ia entrar. “Sei não, tem cada coisa nesse mundo!!”. Ela se afastou, quieta, tinha o que pensar, levou um susto ao receber a brusca oferta. O dinheiro ajudaria em tanta coisa... Não, não poderia abrir mão daquele sonho: o tinha há tanto tempo. O que faria depois, sem ele?
Por via das dúvidas, ela ofereceu, a ele, um cartão. Vendo a profissão, perguntou se ela fazia projetos de instalação de hidrelétricas. Sem saber por que, ela confirmou sem hesitar; nunca fez um. É que nada a impede de contratar uma equipe de outros profissionais para fazerem isso; ela administrando tudo. Daí ele perguntou se ela sabia de pessoas que queriam vender hidrelétrica pequena, num certo Ribeirão, num certo lugar. Respondeu que não sabia, mas que poderia perguntar, tinha contatos na dita região. De raspão, ele fez uma promessa: “se me indicar um bom negócio, ganha um carro de presente”. Ela não acreditou no que ouvia. Estava com a sensação, há dias, de que em breve ganharia um carro, sim, quem sabe porque sentia aquilo? E essa proposta é séria? A quem realmente recorreria para ter informações do dito lugar? Já foi logo imaginando, ampliando a ilusão rasteira.
Ainda esticou a conversa contando iria "lá" no sábado, para uma festa e que especularia a respeito; portanto, precisava do telefone dele para fazer contato, caso conseguisse alguma coisa.
Depois de entrar no ônibus, a conversa foi interrompida: cada qual foi pr'um lado; só os dois homens conversaram ainda, por breves momentos, quase cochichando, mas também eles, como os demais passageiros, se abandonaram ao balanço monótono do veículo avançando rapidamente pela longa escuridão: por cerca de duas horas tudo ficou quieto. Na primeira parada, com caras já da sonolência avançada, ele e ela se encontraram no salão da lanchonete. Ele a olhou com um jeito maroto: “fulana, será que você se acostuma na cidade pequena de novo?” A resposta perfeita seria: “dependerá dos estímulos”, mas ela, talvez por cansaço, só sorriu para o rapaz desgrenhado; e se perguntou como é que um homem que conhecera há poucas horas, lhe fazia pergunta tão pessoal e ainda lhe dava conselhos? Ele tinha repetido: “Não investe em fazenda, não. Não dá dinheiro!”
Depois disso, ele saiu pela roleta da entrada e ela o seguiu, mas, instintivamente, o deixou se distanciar. Algo lhe dizia para manter espaço, deixar vazios entre ela e aquele homem: ele não era nada comum. Sabia seu primeiro nome; lhe bastava. O sobrenome poderia trazer um laço, quem sabe um parentesco, eram da mesma região, ao qual ela não estava tentada a se arriscar. Não, ela não se sentia muito segura com aquela intimidade; e ele desceria adiante, na próxima parada.
Foi o que se deu: telefones anotados, segredos repartidos, propostas insólitas, alguns quilômetros na mesma direção e a sensação indefinida em relação àquele personagem; tanto, mas nada evitou que ele descesse onde disse que desceria. Quando o veículo parou, com o motorista avisando apenas embarque e desembarque, ele se levantou.
Ela aceitaria com naturalidade se ele tivesse se esquecido dela e descesse do carro, em silêncio, discretamente, talvez tão furtivamente quanto havia entrado. Contrariando essa expectativa, entretanto, ele deu dois passos em direção à saída e de repente se voltou: olhou só na direção dela, parecia olhar tateando no escuro. A encontrou e acenou; um único aceno. Ela fez a mesma coisa, com a mão espalmada e imóvel; notou que mantinha o anel de prata enfeitando um dos dedos.
Tudo simples, automático, natural. Ele se foi como disse que ia; ela continuou viagem como disse que faria. Só os pensamentos que a seguiram pelo resto do percurso, e por muitos dias depois, a advertiram de que aquele homem estranho, mistura de atração e assombro poderia ter mudado sua vida para sempre. Sim, se tivesse aceitado vender sua propriedade, estaria embarcando para outras aventuras, nesse momento.
Não, obrigada, pensou ela. Não sabia o que fazer, o que lhe reservava o futuro, mas sabia que aquele sonho, por mais improvável que fosse sua realização, valia mais que qualquer dinheiro. Estava decidida quanto à não venda; só não estava decidida quanto à familiaridade com aquela figura noturna, íntima, tão assustadoramente próxima que fez parte de sua noite por algumas horas; e que esteve à beira de significar tantas diferentes realizações.
Ela, entretanto, era experiente: sabia que aquele rosto se esfumaçaria, se não no amanhecer que chegava, num outro qualquer no futuro. O resto da viagem, entretanto, foi gasto em reconstituir os diálogos, os olhares, os conselhos, a proposta, a promessa. Também foi assim pelos dias seguintes, mesmo ela estando distraída com tantos afazeres. E saber ser pura fantasia tudo que imaginara ser possível acontecer em relação àquela figura não a impediu de vigiar, na viagem de volta, com cuidado, tentando evitar que aflorasse uma réstia de esperança, os passageiros que entraram na parada onde ele desceu. Ele não apareceu, e as razões poderiam encher grosso relatório, ela sabia; mesmo assim, esperou, muito; e disso também ela sabia: esperaria em vão.
Por
Magda R M de Castro
Abaeté, Minas Gerais, 09 de setembro de 2009.
O dia tinha sido de pesado trabalho, muito calor e sede implacável. Água não fazia mais efeito, as pernas viraram balão e apenas caminhava por teimosia: os pés dentro do tênis macio latejavam; mas, “descanso durante a longa viagem". Até lá, nos últimos minutos antes da partida, avisou ao motorista que voltaria rapidamente, que não partisse; “volto logo”.
Foi quase chegando à porta do bar de bancos altos em frente a balcão comprido, que ela o viu; mas não viu de verdade. Sentiu; a observavam, muitos olhos, então, para não tropeçar na própria sombra, deu boa noite. Jogou o boa noite pelo cimentado do chão com o propósito de que o cumprimento, era muito educada, os alcançasse. Nem fazia questão de que respondessem, já havia passado por isso antes, mas faria a parte dela e que aproveitassem se quisessem. Responderam, todos eles e talvez por isso, quando voltou, passou calada. Perdeu a fala, parece. Mesmo porque quem estava ali não correria o risco de se sentar ao lado dela no ônibus: estavam longe do carro já funcionando; provavelmente ninguém ali iria embarcar. E ela já tinha sido benevolente ao extremo de dar boa noite; cumpriu, portanto, sua obrigação.
Estava enganada: ele entrou no último instante; depois até do motorista. Trazia uma mala presa ao corpo e só, nada mais. Os cabelos pareciam ralos na frente, talvez tingidos de antigamente, já deixando transparecer brancos. Nada disso era certo; ela não o encararia; estava com medo de alguma coisa. Não poderia explicar, eram instintos, apenas.
Ela se sentou perto de uma senhora que conhecera em outra viagem. Se reconheceram, lembraram os nomes de cada uma e a conversa se atrelou a assuntos tão diferentes quanto a capital para onde estavam indo, o cultivo de minhocas, mudas de flores, filhos, e a impressionante coincidência das duas mulheres quererem estar em dois lugares ao mesmo tempo. “Quando estou lá quero ficar, mas preciso voltar; quando estou aqui, não quero ir, mas tenho que ir”; isso, na primeira parte da viagem, que durou cerca de meia hora.
Numa cidade próxima teriam que embarcar noutro coletivo: esse vindo de muito longe; antes, esperariam na plataforma ventanosa e solitária. Sendo, portanto, meia dúzia de desenganados viajantes, e o espaço de descanso exíguo, as conversas foram se misturando até que alguém chamou a atenção dela: “Estou ouvindo a conversa e vi que você é irmã de conhecidos, fulanos de tal; é verdade?” “Oh” que interessante! Alguém se acerca, sabe quem sou eu...”, pensa a palradora... Dá ao moço o benefício de sua atenção e responde com outra informação: “É verdade, sou sim. E você é o vizinho que bebe da mesma água que meu irmão, não é? Aquela cacimba é antiga, muita gente fala nela.” – “Isso mesmo. Vocês já mandaram analisar aquela água? Deve ter um 70 de pH.” – “É pura mesmo, não é?” – “Sim, parece que tem gosto próprio.” – “É doce...” ela confessa público segredo: os planos de construir naquela serra especial, um chalé...
Ele, o quarto personagem entra na conversa: “Toma muito cuidado que lá tem onça à beça...”. Homem falante 1: “Ainda tem? Já acabaram todas, não?” – Mulher menos falante: “Cruz credo! Onça não...” Ela: “Pode ser, dias atrás pulou uma no capô do carro de um dos meus irmãos; parda, balançando a barrigona; deu dois pulos e estava do outro lado, no mato”. – “Acho...”, pensa, não foi em um lugar mais longe? Ah, que importa, serve para manter a conversa animada.
“E cascavel também; tem muita cobra naquela serra.” Trovejou o quarto personagem, ele – Foi a vez da tagarela, ela, se assustar: “Muita, é?” – “Demais...” Ela pensa na última vez que tinha subido a serra: correu de canto a outro de um espigão varrido pelo vento por séculos seguidos. Nem uma árvore dali contaria qualquer história: não existiam. Só capim baixo, tombado, como se tivesse sido penteado cuidadosamente...
“Nossa, poderia ter sido picada naquele dia”, pensa ela. Não diz por que seria íntimo demais. Ele continua: “você quer vender sua parte lá em cima? Preciso de terras para reserva; lá em casa são oito irmãos e ninguém tem reserva. Sabe como é, né, desmata-se até na beira do rio...” – “Criam gado...” ela pondera. Ele consente e arremata: me vende que depois você pode continuar lá e fazer o que quiser. Só não pode desmatar”. – “Já disse que não tem árvore lá, moço!” – a mulher meio calada avisa: “ela quer é plantar...” Isso! E quem sabe montar um hotel de ecoturismo; daqueles, por exemplo, para quem gosta de silêncio ou de ouvir passarinho. Tem gente de todo jeito, gosto para qualquer coisa; fazer lá no alto, com a vista que aquilo tem, um lugar gostoso para descansar seria ótimo. Falta grana, mas quem sabe o dia de amanhã?
“Não investe nada lá não. Fazenda não dá dinheiro”. – “Não é só dinheiro que procuro”; ela lembra que quase todo mundo fala isso. "será que só o que importa é ter dinheiro?" Ela tem ganas de desafiar essa lei "geral". Pensa: "Gente, é só um sonho; deixa eu sonhar!" e quem sabe o dia de amanhã? Foi pensando nisso que agradeceu a oferta do moço do cabelo indefinido que entrou no ônibus sem mostrar que ia entrar. “Sei não, tem cada coisa nesse mundo!!”. Ela se afastou, quieta, tinha o que pensar, levou um susto ao receber a brusca oferta. O dinheiro ajudaria em tanta coisa... Não, não poderia abrir mão daquele sonho: o tinha há tanto tempo. O que faria depois, sem ele?
Por via das dúvidas, ela ofereceu, a ele, um cartão. Vendo a profissão, perguntou se ela fazia projetos de instalação de hidrelétricas. Sem saber por que, ela confirmou sem hesitar; nunca fez um. É que nada a impede de contratar uma equipe de outros profissionais para fazerem isso; ela administrando tudo. Daí ele perguntou se ela sabia de pessoas que queriam vender hidrelétrica pequena, num certo Ribeirão, num certo lugar. Respondeu que não sabia, mas que poderia perguntar, tinha contatos na dita região. De raspão, ele fez uma promessa: “se me indicar um bom negócio, ganha um carro de presente”. Ela não acreditou no que ouvia. Estava com a sensação, há dias, de que em breve ganharia um carro, sim, quem sabe porque sentia aquilo? E essa proposta é séria? A quem realmente recorreria para ter informações do dito lugar? Já foi logo imaginando, ampliando a ilusão rasteira.
Ainda esticou a conversa contando iria "lá" no sábado, para uma festa e que especularia a respeito; portanto, precisava do telefone dele para fazer contato, caso conseguisse alguma coisa.
Depois de entrar no ônibus, a conversa foi interrompida: cada qual foi pr'um lado; só os dois homens conversaram ainda, por breves momentos, quase cochichando, mas também eles, como os demais passageiros, se abandonaram ao balanço monótono do veículo avançando rapidamente pela longa escuridão: por cerca de duas horas tudo ficou quieto. Na primeira parada, com caras já da sonolência avançada, ele e ela se encontraram no salão da lanchonete. Ele a olhou com um jeito maroto: “fulana, será que você se acostuma na cidade pequena de novo?” A resposta perfeita seria: “dependerá dos estímulos”, mas ela, talvez por cansaço, só sorriu para o rapaz desgrenhado; e se perguntou como é que um homem que conhecera há poucas horas, lhe fazia pergunta tão pessoal e ainda lhe dava conselhos? Ele tinha repetido: “Não investe em fazenda, não. Não dá dinheiro!”
Depois disso, ele saiu pela roleta da entrada e ela o seguiu, mas, instintivamente, o deixou se distanciar. Algo lhe dizia para manter espaço, deixar vazios entre ela e aquele homem: ele não era nada comum. Sabia seu primeiro nome; lhe bastava. O sobrenome poderia trazer um laço, quem sabe um parentesco, eram da mesma região, ao qual ela não estava tentada a se arriscar. Não, ela não se sentia muito segura com aquela intimidade; e ele desceria adiante, na próxima parada.
Foi o que se deu: telefones anotados, segredos repartidos, propostas insólitas, alguns quilômetros na mesma direção e a sensação indefinida em relação àquele personagem; tanto, mas nada evitou que ele descesse onde disse que desceria. Quando o veículo parou, com o motorista avisando apenas embarque e desembarque, ele se levantou.
Ela aceitaria com naturalidade se ele tivesse se esquecido dela e descesse do carro, em silêncio, discretamente, talvez tão furtivamente quanto havia entrado. Contrariando essa expectativa, entretanto, ele deu dois passos em direção à saída e de repente se voltou: olhou só na direção dela, parecia olhar tateando no escuro. A encontrou e acenou; um único aceno. Ela fez a mesma coisa, com a mão espalmada e imóvel; notou que mantinha o anel de prata enfeitando um dos dedos.
Tudo simples, automático, natural. Ele se foi como disse que ia; ela continuou viagem como disse que faria. Só os pensamentos que a seguiram pelo resto do percurso, e por muitos dias depois, a advertiram de que aquele homem estranho, mistura de atração e assombro poderia ter mudado sua vida para sempre. Sim, se tivesse aceitado vender sua propriedade, estaria embarcando para outras aventuras, nesse momento.
Não, obrigada, pensou ela. Não sabia o que fazer, o que lhe reservava o futuro, mas sabia que aquele sonho, por mais improvável que fosse sua realização, valia mais que qualquer dinheiro. Estava decidida quanto à não venda; só não estava decidida quanto à familiaridade com aquela figura noturna, íntima, tão assustadoramente próxima que fez parte de sua noite por algumas horas; e que esteve à beira de significar tantas diferentes realizações.
Ela, entretanto, era experiente: sabia que aquele rosto se esfumaçaria, se não no amanhecer que chegava, num outro qualquer no futuro. O resto da viagem, entretanto, foi gasto em reconstituir os diálogos, os olhares, os conselhos, a proposta, a promessa. Também foi assim pelos dias seguintes, mesmo ela estando distraída com tantos afazeres. E saber ser pura fantasia tudo que imaginara ser possível acontecer em relação àquela figura não a impediu de vigiar, na viagem de volta, com cuidado, tentando evitar que aflorasse uma réstia de esperança, os passageiros que entraram na parada onde ele desceu. Ele não apareceu, e as razões poderiam encher grosso relatório, ela sabia; mesmo assim, esperou, muito; e disso também ela sabia: esperaria em vão.
Por
Magda R M de Castro
Abaeté, Minas Gerais, 09 de setembro de 2009.
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