Nesses tempos de correria insana, o que aqui em casa não é diferente, criei o hábito de falar menos. Não só por não dar tempo de nos falarmos, mas também porque um dia alguém me disse que eu falava demais. Concordei até porque antes eu falava pouco: sei porque outra pessoa me alertou; só que isso é hábito de pouca gente e a maioria das pessoas não deu fé disso enquanto era assim.
Sei que se num dia eu falava pouco e alguém me mandou soltar as cobras, noutro me destemperei a falar demais; aí teve gente que desdisse o que estava dito.
É isso: me chamaram a atenção de novo. Nessa altura, fiquei refletindo se falava demais ou falava na hora errada porque sempre acreditei que é preciso falar até deixar tudo muito bem explicado; mas nada do que digo costuma ser mentira. É que pareço ser meio avoada vez ou outra, às vezes não entendo, então, gosto de trocar idéias. Isso gosto mesmo. Só que pensar a respeito me mostrou que, talvez, a questão não fosse eu falar demais, mas falar quando não queriam ouvir, não importava fossem verdades, mentiras, coisas boas ou não. Acho que é por isso que fui calando, mais e mais, até que, recentemente, acho que para bagunçar mais ainda, um professor do mestrado, ao me dar uma dica em final de disciplina falou: “você devia falar mais sobre o que sabe...”
Bem, então, peraí! Falo ou não falo? Nossa, pensei baratinada, se falo só sobre o que sei como vou aprender o que não sei? Concluí que é preciso muita inteligência para falar: não é só juntar palavras e passar uma mensagem. Deve ser por isso que os políticos preparam antes os discursos e até contratam gente para escrever o que querem dizer.
Sei que essa pulga ficou me rondando, me atazanando certo tempo, então, para achar o tom certo, li muitos livros, uns de uma coisa outros de outra coisa, fiz cursos, perguntei aos sábios, e acabei descobrindo diferentes formas de conversar, falar o que preciso, transmitir o recado; mas não pensem que isso já funciona: continuo pesquisando...
Isso se deu de tal forma que até aqui em casa tomo cuidado com o que falo. Não dá para apontar o dedo e mostrar o lixo sob o tapete... tem que ir devagar, pé ante pé. Achar a hora certa... o que acabou, hoje cedo, nos levando a uma dessas conversinhas; importante essa, importantíssima, aliás.
É que vejo minhas filhas lutando para tirar as asas dos casulos e fazer com que suas cores e capacidades se estendam até onde devem ir. São mulheres feitas, de empregos, namorados, carteiras de motorista: não precisam que eu continue a vigiar se deixaram comida no prato, o que vão vestir, aonde vão aos finais de semana; mas também não quero que passem ao largo os meus palpites quando foram aprendidos a duras penas, pelas quais, não necessariamente elas precisam passar para aprender. Acredito que aprender é coisa boa demais e não só obrigação ou castigo por algo que não se sabe ter feito ou não; tantos esses os mistérios que nos rodeiam.
Então, falei – em duas ou três conversinhas pequenas – que crescer dói. Uso meu exemplo, de como, por volta dos dezoito anos, sentia a pele doer quando descobria que estava crescendo. Não crescendo de tamanho, mas crescendo em responsabilidades e, principalmente, em possibilidades. Falei que é preciso esforço para reconhecer-se responsável pelos próprios sonhos e pelas decisões que levam a eles e que, em dado momento, pais, mães e demais vigilantes, passarão para um segundo plano. Disse que crescer significava entrar em cena na própria vida e tomar conta dela, fosse como fosse; hora de soltar amarras, de se apresentar à estrada.
Expliquei que em todas as coisas, seres e fatos há pelos menos dois lados: o difícil e o fácil; e que o fácil existe para alimentar nosso espírito para enfrentar o difícil, mas que no fim tudo valeria a pena. Lembrei histórias trágicas de vidas que conhecemos tão pertinho de nós, para mostrar que, tínhamos tudo para sermos felizes e que afinal, mudar era bom demais, que cada pedacinho de vida deveria ser saboreado. Sim, falei que crescer é fantasticamente delicioso: nos dá a mais plena sensação de liberdade; e que não precisa sentir culpa ou ficar com dor na consciência por se tornar dono do próprio nariz; e que não é necessário perder os pais ou os amigos de antes; apenas é preciso vê-los todos sob novas perspectivas: as de quem cresceu para construir o próprio destino. Expliquei também que crescer não é fazer só algumas coisas de adulto, mas fazer todas elas, ou seja, se já se é capaz de pagar pelo próprio lazer, o próprio carro, a viagem, também deve ser capaz de pagar o almoço, a conta de luz, o condomínio e tudo o mais; aí sim se é grande o suficiente para buscar o próprio universo. E mesmo que existisse a parte difícil do crescimento, essa seria apenas uma passagem que se fica grato um dia por transpor com coragem.
Então, são essas as conversinhas que temos agora, misturadas ao suco de melancia, ao clic do celular, à mensagem do MSN no lap top, tudo sobre a mesa do café da manhã, regado à música vinda do carro – de um dos namorados – sendo lavado, caprichosamente, no pátio branco da frente.
São conversinhas, assim, boas que só, entre risos e tilintar de vida, que temos agora, afinal, como um ditado daqui de casa: haja o que houver, “tudo ficará bem...”, inclusive, termos conversinhas tão simplezinhas... de tamanho significado, mas comigo agora falando na hora, no lugar e do jeito certos, sobre o que sei e para quem quer ouvir.
Por
Magda R M de Castro
Brasília – DF, 31 de maio de 2009.
domingo, 31 de maio de 2009
terça-feira, 19 de maio de 2009
OUTONO EM BRASÍLIA
A primeira coisa que acontece quando entra o outono em Brasília é a paineira da minha rua ficar nua. Não é um nu curvilíneo, de derrubar véus e descobrir estrelas como geralmente assim é quando amantes se desnudam a primeira vez e ficam se olhando encantados. Ah, que coisa boa!
O nu do qual estou falando é dolorido, parece as hastes escuras quererem se quebrar a qualquer momento. A pobre da paineira, antes empencada de flores gloriosas, fica lá na esquina, exposta em sua real formatura, mostrando as linhas profundas de suas entranhas. Parece ter vergonha disso? Brincadeira árvore ter vergonha!
Não estou pensando que a paineira despida tem vergonha: acho que quem tem vergonha sou eu. É verdade! Tenho vergonha de não gostar desse tempo, pela tristeza, e, sei que ele tem seus motivos como os outros tempos. Tenho vergonha de viver mais esse milagre e só querer ficar à espreita de quando as flores voltarem. Tenho vergonha de desperdiçar o tempo do outono... mas a paineira não fica bonita não, assim, pelada.
Sei que serão só poucos dias e com o avanço da nova estação, as folhas verdes voltarão para vestir os galhos suplicantes. Aí, a árvore tão mutante se transmutará na vida, simplesmente assim. Depois da odisséia das paineiras, o outono traz a poeira. Ainda demora uma semana ou duas para que ela invada tudo, como em todos os anos: é que as chuvas ainda estão rondando e hoje mesmo cedinho havia nuvens pesadas no céu abobadado do Eixo Monumental: parecia que ia chover; e olha que já passou da metade de maio. Então, por enquanto, ainda não tem muita poeira, mas ela já lá vem...
Só que a poeira traz companhia: o frio. Esse já bateu nas portas de casa; não satisfeito, invadiu as janelas, bateu os toldos, começou a fazer cantigas de assobios pelos telhados e vidraças desavisadas. Já exigiu cobertores e edredons fora de armários, lavados e sacudidos. E o sol das manhãs do meu coração se esconde agora, todas as vezes que o dia chega. Se esconde atrás das serras tão distantes e deixa Brasília indecisa se amanheceu ou não, se é hora de sair da cama ou não.
Esse é outro problema do outono. Sair da cama no inverno a gente já se acostumou, mas sair da cama no outono que é logo depois dos dias espetaculares do verão, tanto júbilo, tanta luz, é mais difícil. É que parece tudo estar no embalo do calor, na liberdade de roupas soltas e coloridas e aí esse outono cinzento chega e bota a gente para vestir a calça xadrez da década passada – é que ela é quentinha e ainda não deu tempo – “tempo” – de comprar uma nova. Ah, tiro as roupas antigas do armário, mesmo!
Sim, mesmo; é porque tem coisas até bem fofas embrulhadas com cuidado. Parece terem levado junto, para o silencioso sono de um ano, as risadas, as brigas e as lembranças do vivido, o de bom e o de mau. Parece que abrir os pacotes agora, buscando peças que podem aquecer sem excessos porque também não está tão frio assim, abre lembranças junto. Acho que esse é um bom exercício: desempacotar lembranças. E cada uma das roupas que vão nos aquecer no outono repentino, e depois no inverno sonolento, vão sendo espalhadas na cama larga e mostrando os seus "dentes" – às vezes de risos, às vezes de choro – mas vão servir para o que servem mesmo assim.
Depois das paineiras, da poeira, do vento e das roupas ainda tem outono em Brasília. É no outono que nos despedimos, por breves meses, das flores em abundância. Há flores ainda, das tímidas patas de vaca, de paineira retardatária que a gente fica admirando entusiasmada e teimosamente, de bougainvilles aqui e ali. Tem uma espécie que resiste a esse entristecimento do tempo: a poderosa espatódea, também conhecida como tulipa africana. Essa é árvore vinda da África, claro; forte, alta, espalha flores carnudas nas calçadas que se a gente pisa, escorrega. Tem uma dessas na pista central do meu bairro e impera altaneira como que pirraçando as paineiras envergonhadas; também há dessas em outras partes da cidade, plantadas ainda na fundação. Há flores, sim, mas, sabe, como é... não é tempo de flores, ainda não.
É outono agora, em Brasília. A cidade se prepara para adormecer o inverno, descansar suas lides, desacelerar seus calores; continua viva, as pessoas trabalhando em suas tantas repartições, os carros andando de lá para cá como formigas em véspera de chuva, o mundo girando... e o outono está aí. Brasília o aceita, o incorpora aos seus hábitos, o leva às caminhadas sem pressa. Assim deve ser o outono, o desarrumar dos enfeites, o desnudar de inutilidades, o descobrimento dos cernes, o escancarar de lembranças que com o tempo vão se tornando doces mesmo tendo nascido amargas.
Assim é o efeito do tempo; o efeito do repouso que o outono trás. Repouso, se não de trabalho, repouso de alma quando a gente observa que a natureza por inteiro, não só o tempo, também retira dos próprios ombros o peso de ser natureza; se não para sempre, por um tempo; no outono especialmente, quando o frio que virá dá espaço para sagradas preparações.
Claro que não estou falando do frio que virá como se fosse aquele que ataca o Saara à noite, ou do que deve existir nas montanhas nevadas; não é não. Estou falando desse frio de outono que é pequeno, sim, mas é frio, não deixa de ser porque é pequeno. E a gente não decide se está frio ou nem tanto que precisa agasalho, que precisa calor. É um frio que fica sem estar, que esfria até o osso mas não está tão frio. É um frio de outono, não é frio de inverno , talvez por isso é que fica por aí, caladinho e gelado, avisando assim o que vem adiante... como se fosse saudade que mata a gente devagarinho...
É que é outono? É por isso?
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 19 de maio de 2009.
O nu do qual estou falando é dolorido, parece as hastes escuras quererem se quebrar a qualquer momento. A pobre da paineira, antes empencada de flores gloriosas, fica lá na esquina, exposta em sua real formatura, mostrando as linhas profundas de suas entranhas. Parece ter vergonha disso? Brincadeira árvore ter vergonha!
Não estou pensando que a paineira despida tem vergonha: acho que quem tem vergonha sou eu. É verdade! Tenho vergonha de não gostar desse tempo, pela tristeza, e, sei que ele tem seus motivos como os outros tempos. Tenho vergonha de viver mais esse milagre e só querer ficar à espreita de quando as flores voltarem. Tenho vergonha de desperdiçar o tempo do outono... mas a paineira não fica bonita não, assim, pelada.
Sei que serão só poucos dias e com o avanço da nova estação, as folhas verdes voltarão para vestir os galhos suplicantes. Aí, a árvore tão mutante se transmutará na vida, simplesmente assim. Depois da odisséia das paineiras, o outono traz a poeira. Ainda demora uma semana ou duas para que ela invada tudo, como em todos os anos: é que as chuvas ainda estão rondando e hoje mesmo cedinho havia nuvens pesadas no céu abobadado do Eixo Monumental: parecia que ia chover; e olha que já passou da metade de maio. Então, por enquanto, ainda não tem muita poeira, mas ela já lá vem...
Só que a poeira traz companhia: o frio. Esse já bateu nas portas de casa; não satisfeito, invadiu as janelas, bateu os toldos, começou a fazer cantigas de assobios pelos telhados e vidraças desavisadas. Já exigiu cobertores e edredons fora de armários, lavados e sacudidos. E o sol das manhãs do meu coração se esconde agora, todas as vezes que o dia chega. Se esconde atrás das serras tão distantes e deixa Brasília indecisa se amanheceu ou não, se é hora de sair da cama ou não.
Esse é outro problema do outono. Sair da cama no inverno a gente já se acostumou, mas sair da cama no outono que é logo depois dos dias espetaculares do verão, tanto júbilo, tanta luz, é mais difícil. É que parece tudo estar no embalo do calor, na liberdade de roupas soltas e coloridas e aí esse outono cinzento chega e bota a gente para vestir a calça xadrez da década passada – é que ela é quentinha e ainda não deu tempo – “tempo” – de comprar uma nova. Ah, tiro as roupas antigas do armário, mesmo!
Sim, mesmo; é porque tem coisas até bem fofas embrulhadas com cuidado. Parece terem levado junto, para o silencioso sono de um ano, as risadas, as brigas e as lembranças do vivido, o de bom e o de mau. Parece que abrir os pacotes agora, buscando peças que podem aquecer sem excessos porque também não está tão frio assim, abre lembranças junto. Acho que esse é um bom exercício: desempacotar lembranças. E cada uma das roupas que vão nos aquecer no outono repentino, e depois no inverno sonolento, vão sendo espalhadas na cama larga e mostrando os seus "dentes" – às vezes de risos, às vezes de choro – mas vão servir para o que servem mesmo assim.
Depois das paineiras, da poeira, do vento e das roupas ainda tem outono em Brasília. É no outono que nos despedimos, por breves meses, das flores em abundância. Há flores ainda, das tímidas patas de vaca, de paineira retardatária que a gente fica admirando entusiasmada e teimosamente, de bougainvilles aqui e ali. Tem uma espécie que resiste a esse entristecimento do tempo: a poderosa espatódea, também conhecida como tulipa africana. Essa é árvore vinda da África, claro; forte, alta, espalha flores carnudas nas calçadas que se a gente pisa, escorrega. Tem uma dessas na pista central do meu bairro e impera altaneira como que pirraçando as paineiras envergonhadas; também há dessas em outras partes da cidade, plantadas ainda na fundação. Há flores, sim, mas, sabe, como é... não é tempo de flores, ainda não.
É outono agora, em Brasília. A cidade se prepara para adormecer o inverno, descansar suas lides, desacelerar seus calores; continua viva, as pessoas trabalhando em suas tantas repartições, os carros andando de lá para cá como formigas em véspera de chuva, o mundo girando... e o outono está aí. Brasília o aceita, o incorpora aos seus hábitos, o leva às caminhadas sem pressa. Assim deve ser o outono, o desarrumar dos enfeites, o desnudar de inutilidades, o descobrimento dos cernes, o escancarar de lembranças que com o tempo vão se tornando doces mesmo tendo nascido amargas.
Assim é o efeito do tempo; o efeito do repouso que o outono trás. Repouso, se não de trabalho, repouso de alma quando a gente observa que a natureza por inteiro, não só o tempo, também retira dos próprios ombros o peso de ser natureza; se não para sempre, por um tempo; no outono especialmente, quando o frio que virá dá espaço para sagradas preparações.
Claro que não estou falando do frio que virá como se fosse aquele que ataca o Saara à noite, ou do que deve existir nas montanhas nevadas; não é não. Estou falando desse frio de outono que é pequeno, sim, mas é frio, não deixa de ser porque é pequeno. E a gente não decide se está frio ou nem tanto que precisa agasalho, que precisa calor. É um frio que fica sem estar, que esfria até o osso mas não está tão frio. É um frio de outono, não é frio de inverno , talvez por isso é que fica por aí, caladinho e gelado, avisando assim o que vem adiante... como se fosse saudade que mata a gente devagarinho...
É que é outono? É por isso?
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 19 de maio de 2009.
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