Não são todas as manhãs que posso me emaranhar por essas tantas possibilidades que me dá o computador. Em algumas delas, estou longe, não por meu gosto, mas por necessidade. Mas sempre que tenho essa chance, e nas de sol iluminando até pensamento, tem um canarinho cantando feliz. É que o vizinho cria passarinhos e os solta nas manhãs calmas e perfumadas. E então é muito bom ficar escrevendo com a energia batendo quente no chão de tábuas e o canto do pequenino.
Então, meu coração se alarga, devaneio, sonho. É um privilégio quando posso fazer isso. É a minha renovação: essa luz toda não deixa ninguém de fora e eu, especialmente, me deixo arrastar por ela, saio ao léu, me deliciando, e tentando explicar porque acho tão bom isso tudo.
Aqui em Brasília, mesmo ainda sendo oficialmente inverno, os dias costumam ser gloriosos e as flores, cedo, se arrumam em fila para enfeitar as amplidões. Algumas são mais apressadas e encantam e, desencantam obedecendo ao ciclo natural, antes da maioria, de modo que mesmo na sequidão mais bege, há jardins alegrando os já alegres raios de sol e os passarinhos e, gente.
É bom demais poder parar assim de manhã, se aquietar a ponto de ouvir passarinhos. É o resultado de longa caminhada, durante a qual rodei que nem pião, bati em paredes, quiquei em buracos e dancei ao som das melhores músicas também que isso seja dito. Uma aventura posso dizer foi minha vida até aqui: surpreendente, encantadora, rica, completa.
Completa porque até agora fiz tudo que quis, e tudo que quis eu pude fazer, se não por condições apropriadas, por teima. Sou teimosa, sim, ainda sou e parece vou continuar sendo. Não é porque sou burra, apenas, disso tenho um pouco também que isso é do ser humano, mas porque ainda não morri e coisas que somos muito no fundo somos sempre, verdadeiramente. Tem coisas que somos tão verdadeiramente que a gente tem até que ir arrancando uns pranchões pelos caminhos, quebrando os dedões do pé, mas vivendo mesmo assim.
Tem coisas que não dá mesmo para mudar, coisas das quais a gente não escapa, por mais que se tente. Mas acho que se forçamos muito certos rumos é porque não nos conhecemos a ponto de gostar dos defeitos também. É porque a gente gosta do rio apesar de ter barro que gruda na pele; gosta da chuva mesmo com o frio, do calor mesmo com a canseira que dá. É isso: gostamos de verdade quando gostamos junto dos defeitos e eles podem até ser bonitinhos um dia.
Esse um dia é para poucos, os ungidos penso, que foram transformando o olhar junto com todas as transformações. Penso nisso quando vejo pessoas que viveram lado a lado por muitos anos e quando se separam sofrem e se acabam, até morrem junto. Isso acontece. É que aprenderam a amar o torto que diz piadas, a gorda que é cheirosa, o pequeno que canta divinamente, a magra que faz pão como ninguém. É que em toda criação há beleza, tudo que existe tem um milagre embutido.
É por isso que sou teimosa: tento, acerto, ou erro, vou ali, volto, insisto, faço de novo. Olha, estou aqui outra vez. Vim novamente, apesar de não estar mais bonita que antes, apesar de me descobrir um pouco mais burra do que acreditava, apesar de continuar a caipira que sempre fui, continuo com a teima de ser feliz, é o que digo. Quero, procuro, construo depois de desmanchar: quero ser feliz.
É que tem esse chamado, esse canto de passarinho, essas manhãs iluminadas e essas flores de perfume que me encantam, me arrastam para a esperança, me carregam para a alegria: teima pura!! Se fosse ver, com o olhar de tantas ilusões o mundo tem, não teria a mínima condição de, nem mesmo pensar, o que dirá ser, feliz. Teimosia só.
De tanto rodar, rodar, teimar e teimar, ainda penso: será que gente já morreu disso?
Por
Magda R M de Castro
Brasília, DF, 28 de agosto de 2008.
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
O ÚLTIMO AMOR
Não se vê, ou, não se ouve tanta história de último amor como se ouve de “primeiro amor”. Por que será? Talvez seja porque nunca se tem certeza de que será assim: poderá haver outro enquanto houver vida. Falo do amor de paixão, do gostar com a alma. Há tantas histórias de primeiro amor, mas não vejo muitas de último. Há, muitas vezes, a condição de que para ser grande, o primeiro amor tem também que ser o último.
Isso seria uma tragédia, não um romance. Aliás, tragédia é quase sempre o primeiro amor. Talvez pelo contexto, tempo ou incapacidade das pessoas em compreendê-lo. E ele pode acontecer enquanto estamos olhando para outro lado, admirando outras paisagens.
Também talvez seja assim porque o amor não vem em carta de correio: “o amor está chegando. Viva-o!”. Tentar defini-lo também é perder tempo e talvez fôssemos mais felizes se apenas apreciássemos o sentimento; não somos assim, apesar de estarmos a caminho.
Talvez por isso existam histórias de amor conhecidas através dos tempos. O mundo gira, vemos trabalhos científicos ganhando prêmios, a tecnologia evolui maravilhas, e ainda uma história de amor emociona.
Mas, poucas são histórias de último amor. Porque é quase tão difícil termos um único amor por toda a vida quanto defini-lo. A caminhada nos traz perdas de muitas nuances e sim, há também os ganhos, os temos todos os vivos. Mas a nossa trajetória completa tem pontos de interrupção, de fratura daquilo que imaginamos para nós no início. E esses pontos quase sempre envolvem os amores, de todos os matizes, que nos marcam para sempre.
Talvez por isso não se fale em último amor. Ainda pode não ser o último, como poderíamos saber? E se soubermos por que falar dele? Se já tivermos cabelos brancos quem entenderia? Velhos apaixonados? Coisa rara se ouvir dizer. Entretanto, é perfeitamente possível amarmos até o último dia, por ser o amor a nossa essência.
Não se falar de amores últimos também pode ser em razão de os personagens serem mais discretos, experientes, e preferirem viver suas paixões mais intimamente: é certo que elas existem em qualquer idade.
Já vi algumas histórias lindas, li duas numa reportagem de jornal, possivelmente há exemplos clássicos que por hora não me lembro, mas essas são em menor número em relação às do primeiro amor. Então, falo aos meus botões, imaginando como se diria ao último amor. “Viveram felizes para sempre” não seria um bom slogan. Esse “sempre” soaria falso. “Até que a morte os separe” poderia ser até cruel dizer.
Mesmo assim, me atrevo a imaginar esse último amor. Creio que esse sim poderia ser chamado de amor. Aquele que é calma, que organiza desarranjos, que diminui o movimento, que desacelera a busca. Aquele que aconchega em silêncio, que aquece sem apertar. Leve, sossegado, que não faz perguntas, que já superou vaidades e medos. Portanto, talvez o maduro seja o que mereça esse nome: amor verdadeiro.
Quanto a mim, uma viciada em amor, saberei quando sentir o último: não vai doer como outros vivi, não vai se transmutar em ira. Vai ser só paz. Despedida não terá, sei, que mesmo já sendo hora da partida final, estará comigo. Vou cuidar para que seja assim, e bonito mesmo assim.
Viver um último amor, creio, é sem ciúmes: é amor de cerne, de profundidade; não contará a beleza física, possivelmente; nem haverá insegurança ou competição; não caberão mentiras ou máscaras: teriam se esgotado antes.
Com o último amor não se assinará contratos. Se precisará de tão pouco, casa e comida, finalmente, o amor e uma cabana. Deve existir, no último amor, calor e diálogo: que mais se poderia fazer?
Um último amor será o melhor amigo, porque será presente: o futuro poderá não alcançar o café da manhã. E se assim acontecer, como derradeiro, poderá também se desvanecer com o Ângelus. É nessa hora que se reza e agradece a passagem do dia na preparação da noite. É a hora de agradecer também o passado, outros amores, e especialmente, o último, esse, acima de todos os outros.
O último amor estará acima de todos em razão de ser intenso para compensar que não acompanhará pela vida afora. E, sobretudo, porque é o que estará nos preparando para a morte.
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 15 de agosto de 2008.
Isso seria uma tragédia, não um romance. Aliás, tragédia é quase sempre o primeiro amor. Talvez pelo contexto, tempo ou incapacidade das pessoas em compreendê-lo. E ele pode acontecer enquanto estamos olhando para outro lado, admirando outras paisagens.
Também talvez seja assim porque o amor não vem em carta de correio: “o amor está chegando. Viva-o!”. Tentar defini-lo também é perder tempo e talvez fôssemos mais felizes se apenas apreciássemos o sentimento; não somos assim, apesar de estarmos a caminho.
Talvez por isso existam histórias de amor conhecidas através dos tempos. O mundo gira, vemos trabalhos científicos ganhando prêmios, a tecnologia evolui maravilhas, e ainda uma história de amor emociona.
Mas, poucas são histórias de último amor. Porque é quase tão difícil termos um único amor por toda a vida quanto defini-lo. A caminhada nos traz perdas de muitas nuances e sim, há também os ganhos, os temos todos os vivos. Mas a nossa trajetória completa tem pontos de interrupção, de fratura daquilo que imaginamos para nós no início. E esses pontos quase sempre envolvem os amores, de todos os matizes, que nos marcam para sempre.
Talvez por isso não se fale em último amor. Ainda pode não ser o último, como poderíamos saber? E se soubermos por que falar dele? Se já tivermos cabelos brancos quem entenderia? Velhos apaixonados? Coisa rara se ouvir dizer. Entretanto, é perfeitamente possível amarmos até o último dia, por ser o amor a nossa essência.
Não se falar de amores últimos também pode ser em razão de os personagens serem mais discretos, experientes, e preferirem viver suas paixões mais intimamente: é certo que elas existem em qualquer idade.
Já vi algumas histórias lindas, li duas numa reportagem de jornal, possivelmente há exemplos clássicos que por hora não me lembro, mas essas são em menor número em relação às do primeiro amor. Então, falo aos meus botões, imaginando como se diria ao último amor. “Viveram felizes para sempre” não seria um bom slogan. Esse “sempre” soaria falso. “Até que a morte os separe” poderia ser até cruel dizer.
Mesmo assim, me atrevo a imaginar esse último amor. Creio que esse sim poderia ser chamado de amor. Aquele que é calma, que organiza desarranjos, que diminui o movimento, que desacelera a busca. Aquele que aconchega em silêncio, que aquece sem apertar. Leve, sossegado, que não faz perguntas, que já superou vaidades e medos. Portanto, talvez o maduro seja o que mereça esse nome: amor verdadeiro.
Quanto a mim, uma viciada em amor, saberei quando sentir o último: não vai doer como outros vivi, não vai se transmutar em ira. Vai ser só paz. Despedida não terá, sei, que mesmo já sendo hora da partida final, estará comigo. Vou cuidar para que seja assim, e bonito mesmo assim.
Viver um último amor, creio, é sem ciúmes: é amor de cerne, de profundidade; não contará a beleza física, possivelmente; nem haverá insegurança ou competição; não caberão mentiras ou máscaras: teriam se esgotado antes.
Com o último amor não se assinará contratos. Se precisará de tão pouco, casa e comida, finalmente, o amor e uma cabana. Deve existir, no último amor, calor e diálogo: que mais se poderia fazer?
Um último amor será o melhor amigo, porque será presente: o futuro poderá não alcançar o café da manhã. E se assim acontecer, como derradeiro, poderá também se desvanecer com o Ângelus. É nessa hora que se reza e agradece a passagem do dia na preparação da noite. É a hora de agradecer também o passado, outros amores, e especialmente, o último, esse, acima de todos os outros.
O último amor estará acima de todos em razão de ser intenso para compensar que não acompanhará pela vida afora. E, sobretudo, porque é o que estará nos preparando para a morte.
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 15 de agosto de 2008.
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