Não se vê, ou, não se ouve tanta história de último amor como se ouve de “primeiro amor”. Por que será? Talvez seja porque nunca se tem certeza de que será assim: poderá haver outro enquanto houver vida. Falo do amor de paixão, do gostar com a alma. Há tantas histórias de primeiro amor, mas não vejo muitas de último. Há, muitas vezes, a condição de que para ser grande, o primeiro amor tem também que ser o último.
Isso seria uma tragédia, não um romance. Aliás, tragédia é quase sempre o primeiro amor. Talvez pelo contexto, tempo ou incapacidade das pessoas em compreendê-lo. E ele pode acontecer enquanto estamos olhando para outro lado, admirando outras paisagens.
Também talvez seja assim porque o amor não vem em carta de correio: “o amor está chegando. Viva-o!”. Tentar defini-lo também é perder tempo e talvez fôssemos mais felizes se apenas apreciássemos o sentimento; não somos assim, apesar de estarmos a caminho.
Talvez por isso existam histórias de amor conhecidas através dos tempos. O mundo gira, vemos trabalhos científicos ganhando prêmios, a tecnologia evolui maravilhas, e ainda uma história de amor emociona.
Mas, poucas são histórias de último amor. Porque é quase tão difícil termos um único amor por toda a vida quanto defini-lo. A caminhada nos traz perdas de muitas nuances e sim, há também os ganhos, os temos todos os vivos. Mas a nossa trajetória completa tem pontos de interrupção, de fratura daquilo que imaginamos para nós no início. E esses pontos quase sempre envolvem os amores, de todos os matizes, que nos marcam para sempre.
Talvez por isso não se fale em último amor. Ainda pode não ser o último, como poderíamos saber? E se soubermos por que falar dele? Se já tivermos cabelos brancos quem entenderia? Velhos apaixonados? Coisa rara se ouvir dizer. Entretanto, é perfeitamente possível amarmos até o último dia, por ser o amor a nossa essência.
Não se falar de amores últimos também pode ser em razão de os personagens serem mais discretos, experientes, e preferirem viver suas paixões mais intimamente: é certo que elas existem em qualquer idade.
Já vi algumas histórias lindas, li duas numa reportagem de jornal, possivelmente há exemplos clássicos que por hora não me lembro, mas essas são em menor número em relação às do primeiro amor. Então, falo aos meus botões, imaginando como se diria ao último amor. “Viveram felizes para sempre” não seria um bom slogan. Esse “sempre” soaria falso. “Até que a morte os separe” poderia ser até cruel dizer.
Mesmo assim, me atrevo a imaginar esse último amor. Creio que esse sim poderia ser chamado de amor. Aquele que é calma, que organiza desarranjos, que diminui o movimento, que desacelera a busca. Aquele que aconchega em silêncio, que aquece sem apertar. Leve, sossegado, que não faz perguntas, que já superou vaidades e medos. Portanto, talvez o maduro seja o que mereça esse nome: amor verdadeiro.
Quanto a mim, uma viciada em amor, saberei quando sentir o último: não vai doer como outros vivi, não vai se transmutar em ira. Vai ser só paz. Despedida não terá, sei, que mesmo já sendo hora da partida final, estará comigo. Vou cuidar para que seja assim, e bonito mesmo assim.
Viver um último amor, creio, é sem ciúmes: é amor de cerne, de profundidade; não contará a beleza física, possivelmente; nem haverá insegurança ou competição; não caberão mentiras ou máscaras: teriam se esgotado antes.
Com o último amor não se assinará contratos. Se precisará de tão pouco, casa e comida, finalmente, o amor e uma cabana. Deve existir, no último amor, calor e diálogo: que mais se poderia fazer?
Um último amor será o melhor amigo, porque será presente: o futuro poderá não alcançar o café da manhã. E se assim acontecer, como derradeiro, poderá também se desvanecer com o Ângelus. É nessa hora que se reza e agradece a passagem do dia na preparação da noite. É a hora de agradecer também o passado, outros amores, e especialmente, o último, esse, acima de todos os outros.
O último amor estará acima de todos em razão de ser intenso para compensar que não acompanhará pela vida afora. E, sobretudo, porque é o que estará nos preparando para a morte.
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 15 de agosto de 2008.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
quinta-feira, 14 de agosto de 2008
O DIA EM QUE MORRI
Foi no dia em que fiz aquela pergunta. Poderia tê-la evitado, poderia tê-la ignorado. Poderia, mas não pude. Ela martelava há muito tempo, tinha ficado na berlinda por muitos anos, disfarçada, camuflada pela vida seguindo em correnteza levando tudo a reboque.
Eu ainda não tinha me agarrado ao barranco para dar tempo de puxar o fôlego ao máximo, fosse para avaliar a velocidade da corrente fosse para reconhecer ou admirar o lugar para onde estava indo longe. E a pergunta ficou submersa, distraída entre os apetrechos, até que a pronunciei: “Você tem amor e carinho para me dar?”
Quando disse essas palavras, em voz alta e clara, e firme, e não o grito que pensei fosse dar, tudo veio junto: um amontoado de silêncios trepidantes, pedaços de palavras coladas em pedaços de passado, enxurrada de tempestade. E um mar escuro, escoando de ferida purulenta.
Fazer aquela pergunta me esvaziou das dúvidas tantas pareciam se somar umas às outras, ininterruptamente. Perguntar sobre amor destampou a boca do poço, esse, seco há anos; e descobri que ali tinha crescido alta floresta de ervas daninhas.
E o ímpeto da pergunta fez todo o resto acontecer rapidamente ainda que eu já soubesse a resposta há muito tempo. Não tinha tido ainda coragem de perguntar porque sabia que depois de ouvir a resposta teria que escolher qual parte de mim viveria. Escolhi a parte verdadeira, então, meia de mim se foi com a correnteza, para sempre.
É que, decidida a não continuar no mesmo rumo, me icei à margem: “é aqui que paro!” e o rio seguiu também esvaziado de mim e de minhas mazelas. Mesmo assim, levou muitas coisas minhas, as que não tive forças para segurar. Ainda tentei pegar algo aqui e ali, mas o trabalho no porto era inadiável. Construir um abrigo com o que resgatei era premente. Ainda assim, vez ou outra, perscrutei a correnteza, reconheci a importância de tantos e tantas. E as distribui para os lugares onde cada uma devia ficar.
Também eu fiquei só parte: tive a audácia de trocar de lugar, de escolher, de me reorientar. Tenho saudade da parte que se foi rio abaixo, às vezes. Me lembro dela dependendo de quem vejo, com quem falo e de qual caminho pego.
Entretanto, quando isso começa a incomodar, volto-me para observar a paisagem. É alívio que sinto quando a vejo ligeiramente vazia. Por enquanto, porque estou semeando um novo jardim, erguendo novo tempo para quem está ao meu lado, que seja para mim mesma e meus personagens de recordações. As boas recordações, diga-se, porque as ruins foram tragadas para o fundo das águas velozes, metáfora da vida que não quis mais viver.
É serenidade que sinto quando vejo que preencher esse espaço que escolhi para atracar, pouco a pouco, parece agradável perspectiva.
Por
Magda R M de Castro
Brasília, 11 de agosto de 2008.
Eu ainda não tinha me agarrado ao barranco para dar tempo de puxar o fôlego ao máximo, fosse para avaliar a velocidade da corrente fosse para reconhecer ou admirar o lugar para onde estava indo longe. E a pergunta ficou submersa, distraída entre os apetrechos, até que a pronunciei: “Você tem amor e carinho para me dar?”
Quando disse essas palavras, em voz alta e clara, e firme, e não o grito que pensei fosse dar, tudo veio junto: um amontoado de silêncios trepidantes, pedaços de palavras coladas em pedaços de passado, enxurrada de tempestade. E um mar escuro, escoando de ferida purulenta.
Fazer aquela pergunta me esvaziou das dúvidas tantas pareciam se somar umas às outras, ininterruptamente. Perguntar sobre amor destampou a boca do poço, esse, seco há anos; e descobri que ali tinha crescido alta floresta de ervas daninhas.
E o ímpeto da pergunta fez todo o resto acontecer rapidamente ainda que eu já soubesse a resposta há muito tempo. Não tinha tido ainda coragem de perguntar porque sabia que depois de ouvir a resposta teria que escolher qual parte de mim viveria. Escolhi a parte verdadeira, então, meia de mim se foi com a correnteza, para sempre.
É que, decidida a não continuar no mesmo rumo, me icei à margem: “é aqui que paro!” e o rio seguiu também esvaziado de mim e de minhas mazelas. Mesmo assim, levou muitas coisas minhas, as que não tive forças para segurar. Ainda tentei pegar algo aqui e ali, mas o trabalho no porto era inadiável. Construir um abrigo com o que resgatei era premente. Ainda assim, vez ou outra, perscrutei a correnteza, reconheci a importância de tantos e tantas. E as distribui para os lugares onde cada uma devia ficar.
Também eu fiquei só parte: tive a audácia de trocar de lugar, de escolher, de me reorientar. Tenho saudade da parte que se foi rio abaixo, às vezes. Me lembro dela dependendo de quem vejo, com quem falo e de qual caminho pego.
Entretanto, quando isso começa a incomodar, volto-me para observar a paisagem. É alívio que sinto quando a vejo ligeiramente vazia. Por enquanto, porque estou semeando um novo jardim, erguendo novo tempo para quem está ao meu lado, que seja para mim mesma e meus personagens de recordações. As boas recordações, diga-se, porque as ruins foram tragadas para o fundo das águas velozes, metáfora da vida que não quis mais viver.
É serenidade que sinto quando vejo que preencher esse espaço que escolhi para atracar, pouco a pouco, parece agradável perspectiva.
Por
Magda R M de Castro
Brasília, 11 de agosto de 2008.
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