A gente se acha até normal enquanto não nos jogam tomate. Essa seria uma situação extrema, para ilustrar o que pode acontecer quando não estamos agradando. Só que não agradar nem sempre precisa ser descoberto assim.
A gente se descobre desagradando, ou pelos menos, não agradando profundamente quando o telefonema prometido não veio, quando descobrimos uma festa depois que ela passou, quando nos contam de certa – e ignorada – linda viagem; quando alguém prometeu visitar e só teve tempo de passar à tarde, para entregar encomenda urgente e aceita um copo de – “suco não, por favor” – água fresca, tomada rapidamente.
Se coisas assim acontecem a miúde tem-se que desconfiar. É bom ver se o guarda-roupa não está ultrapassado, se o hálito está fresco, se o desodorante não venceu, se o sapato não perdeu a borrachinha do salto. Também, talvez seja hora de trocar a bolsa perfeita, mas que já solta umas linhazinhas.
Se sentir que a casa um dia calou é bom observar se os banheiros andam limpos, se as plantas dos vasos estão verdes, se os quadros das paredes estão aprumadinhos. Quando o telefone não toca é bom ver se os recados foram respondidos, se os pequenos compromissos foram cumpridos como os importantes, se os e-mails foram correspondidos.
É que, um dia, a gente vai desagradar. Uma irritação porque o carro parou bem no centro da pista pode mostrar o lado feio da gente. Esqueceu a escova de dentes e aí nem a goma de mascar vai ajudar no cineminha; vestiu roupa apertada e escura para a tarde de museu ao ar livre, errou feio; então, tomate!!
Se for tomate vermelho e macio, pode-se fazer suco; se for aquele tomate japonês enorme, parece três grudados, tirado verde do pé, aí, ai, ai.
Desagradar não agrada a ninguém, e não precisa chegar ao ponto de atirar tomates por aí, entretanto, também podemos preparar um episódio com o objetivo claro de desagradar, talvez, para dispensar algo ou alguém. Não responder às mensagens do celular ou dos e-mails, pelo menos umas quatro; dizer que viajou ou que saiu para o shopping quando perguntam por que não atendeu em casa – telefone com registro de chamadas – são corriqueiros métodos de dispensar contatos.
Existe, entretanto, formas tão sutis de afastar o “indesejável”, digamos assim, que nem nós mesmos percebemos. Acho que é porque cansa tirar a poeira todo dia; cansa lutar contra o prato apetitoso; a gente se esgota tentando disfarçar a nova ruga: vale-se mais que cirurgia plástica, pô! O cabelo embranquece e a gente não quer pintar: vale-se além de cabelos. E se, não for assim, a conseqüência é ir sumindo, devagar, das listas de amigos.
Ocorre que, não se sabe se por desilusão, se por preguiça, ou por um boicote inconsciente ao perigo que é ficar à mercê dos eventos e se decepcionar porque não acontece aquilo que queremos para nossa felicidade, nós mesmos nos colocamos na sombra. Inconscientemente, vamos nos tornando menos vaidosos, menos cuidadosos, menos simpáticos, menos gentis, resultado talvez das pedradas que levamos. Descuidamos e comemos mais, estudamos menos, saímos em público cada vez mais raramente.
E descuidar de nós pode ser o sinal de que estamos com medo dos atritos da arena. Se, por exemplo, passamos a comer sem fome pode indicar que estamos tentando criar um mecanismo, engordando demais, para sair do páreo, para que não tenhamos atrativos. Não atrair, por exemplo, um parceiro que nos fira de novo, que nos humilhe de novo: é melhor ficar sem.
Ouço dizer que o ser humano não foi feito para viver só. Mas muitos de nós estamos sozinhos; por opção? Acho que não. Por medo, creio. E é esse medo que faz com que desistamos de ser agradáveis e simpáticos. É que ser agradável e simpático pode atrair o interessante, mas pode também atrair maus eventos. Então, desistimos de mostrar a melhor parte do que somos para não corrermos o risco de sofrer, ou levar umas tomatadas.
O lado bom disso é que pode acontecer que, mesmo desagradáveis, gordos, com o hálito comprometido ainda atraímos algo muito interessante. Se formos lúcidos o bastante para reconhecermos isso antes que desapareça, podemos voltar a acreditar. E quando se descobre a atração mesmo numa pessoa em caquinhos, é razão para acreditar na vitória dos melhores valores. E aí, de volta ao dia, recomeça a ciranda de nos mostrarmos simpáticos, agradáveis, rodeados de amigos ... e felizes.
Magda R M de Castro
Brasília – DF, 31 de outubro de 2008.
sexta-feira, 31 de outubro de 2008
domingo, 28 de setembro de 2008
NA LINHA DO VENTO
Um dia a gente pára a correria. Um dia a gente pára: sem querer, querendo, com gosto, alegria, ou nem tanto assim. Infinito, por enquanto, é só o universo; tudo o mais tem um fecho.
Parar pode ser de repente, nada previsto: a vida, ou a morte, um dia nos faz quietos. Tem, sim, a hora do descanso que pode se fazer em pequenas paradas, espaçadamente no começo, mas à medida que muitas dessas acontecem, o tempo de descanso vai aumentando de tamanho, até que, todas as reticências juntas dão na parada final.
Ou a vida vai se aquietando, os sons perdendo os significados, os cheiros já se misturam e se tornam um só... indefinível: todos são tão importantes ou nada importantes. O movimento se espraia; valores antes tão fortes se distanciam, se afastam para dar lugar a outros mais necessários para o momento.
São as substituições naturais que fazemos para nos permitir uma sobrevida. Não gosto de pensar em perdas e em ganhos compensatórios: a idéia me leva sempre a dinheiro, esse vil papel, tão vil razão para tantos desvarios e conseqüentes desperdícios. Gosto de pensar em substituições: é que a viagem à qual todos estamos condenados faz com que as coisas, e a gente também, se movimentem. Então, o que sai deixa lugar vazio, e daí algo se encaixa na medida do oco que ficou, se acomoda ali por um tempo; até que tudo gire de novo.
Contemporaneamente, talvez pelo número crescente de elementos na superfície do globo terrestre, há muito movimento. Tudo gira muito rapidamente e os vazios se sucedem, assim como os recheios dos espaços vão sendo realocados muito rapidamente. E esse suceder de vazios e preenchimentos nos mantém a caminho, na linha de forças tão diversas que nem sempre somos capazes de reconhecer, mas que nos põem no rumo.
Creio que há sempre um rumo; mesmo que não reconheçamos nem lhe damos nome. É esse, num ponto qualquer, que nos iça para a vida, para o caminhar. Até mesmo um ponto de parada é movimento; mesmo quietos por instantes estamos na estrada. Introspectivos também, mesmo quando não preparados para isso, estamos participando da sinergia que nos ata uns aos outros. Isso torna o refletir trabalho árduo, exigente de disciplina e dedicação e, persistência.
Parar para refletir é chance, preciosa, de batermos palmas para nossos acertos e preparar os próximos passos de modo a errar menos. Refletir é juntar o que sabemos de modo a criar o que não conhecíamos. Refletir é exercício solitário, mas que nos permite reconhecer como vivemos ao lado dos demais. Uma reflexão só pode ser assim chamada quando nos amplia, quando nos remete para além do espaço conhecido e, sobretudo, nos dá a conhecer nossa alma com o que ela tem de melhor, e de pior.
É então, que identificamos o efeito da pessoa que somos sobre o que tocamos e sobre o que nos toca. Desenvolver especial sensibilidade pelo mundo que nos rodeia permite-nos reconhecer o nosso valor para o movimento da vida, em todas as suas formas. E formas, há muitas, tipos e cores, paradas ou em movimento.
Portanto, parar um pouco, tomar pausa para refletir pode permitir que o suceder contínuo de movimentos nos leve, conscientes então, ao encontro da verdadeira plenitude que é o viver.
Por
Magda R M de Castro
Agosto de 2008.
Parar pode ser de repente, nada previsto: a vida, ou a morte, um dia nos faz quietos. Tem, sim, a hora do descanso que pode se fazer em pequenas paradas, espaçadamente no começo, mas à medida que muitas dessas acontecem, o tempo de descanso vai aumentando de tamanho, até que, todas as reticências juntas dão na parada final.
Ou a vida vai se aquietando, os sons perdendo os significados, os cheiros já se misturam e se tornam um só... indefinível: todos são tão importantes ou nada importantes. O movimento se espraia; valores antes tão fortes se distanciam, se afastam para dar lugar a outros mais necessários para o momento.
São as substituições naturais que fazemos para nos permitir uma sobrevida. Não gosto de pensar em perdas e em ganhos compensatórios: a idéia me leva sempre a dinheiro, esse vil papel, tão vil razão para tantos desvarios e conseqüentes desperdícios. Gosto de pensar em substituições: é que a viagem à qual todos estamos condenados faz com que as coisas, e a gente também, se movimentem. Então, o que sai deixa lugar vazio, e daí algo se encaixa na medida do oco que ficou, se acomoda ali por um tempo; até que tudo gire de novo.
Contemporaneamente, talvez pelo número crescente de elementos na superfície do globo terrestre, há muito movimento. Tudo gira muito rapidamente e os vazios se sucedem, assim como os recheios dos espaços vão sendo realocados muito rapidamente. E esse suceder de vazios e preenchimentos nos mantém a caminho, na linha de forças tão diversas que nem sempre somos capazes de reconhecer, mas que nos põem no rumo.
Creio que há sempre um rumo; mesmo que não reconheçamos nem lhe damos nome. É esse, num ponto qualquer, que nos iça para a vida, para o caminhar. Até mesmo um ponto de parada é movimento; mesmo quietos por instantes estamos na estrada. Introspectivos também, mesmo quando não preparados para isso, estamos participando da sinergia que nos ata uns aos outros. Isso torna o refletir trabalho árduo, exigente de disciplina e dedicação e, persistência.
Parar para refletir é chance, preciosa, de batermos palmas para nossos acertos e preparar os próximos passos de modo a errar menos. Refletir é juntar o que sabemos de modo a criar o que não conhecíamos. Refletir é exercício solitário, mas que nos permite reconhecer como vivemos ao lado dos demais. Uma reflexão só pode ser assim chamada quando nos amplia, quando nos remete para além do espaço conhecido e, sobretudo, nos dá a conhecer nossa alma com o que ela tem de melhor, e de pior.
É então, que identificamos o efeito da pessoa que somos sobre o que tocamos e sobre o que nos toca. Desenvolver especial sensibilidade pelo mundo que nos rodeia permite-nos reconhecer o nosso valor para o movimento da vida, em todas as suas formas. E formas, há muitas, tipos e cores, paradas ou em movimento.
Portanto, parar um pouco, tomar pausa para refletir pode permitir que o suceder contínuo de movimentos nos leve, conscientes então, ao encontro da verdadeira plenitude que é o viver.
Por
Magda R M de Castro
Agosto de 2008.
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