domingo, 12 de abril de 2026

QUEBRANDO CABEÇA

Depois do veredicto do Neurologista ao terceiro exame, parti pro hospital. Recebi a sugestão de retirar o ET do crânio pra não causar problemas futuros. Escolhi data e local: Hospital de Base do Distrito Federal. "Lá é pauleira, mãe, vc vai aguentar?" Se não, qual opção teria? Sem plano de saúde, vender a casa, impossível, com boi na linha? "Aguento"

Pacientemente, calmamente, esperei chegar o momento de ser tratada. E dispensei acompanhante. Mesmo uma noite dormindo em cadeira, mesmo vendo gente morrer, mesmo ouvindo gritos de dor em ambiente extremamente nocivo, fui me resguardando como pude, caprichando na alimentação, na água, tomando certinho os remédios, a princípio os que levei, e sem reclamar nem uma vírgula. Tudo escolhi, assumia a cada momento: vou aguentar. 

Já na emergência começaram exames; três dias depois, internação no terceiro andar: Neurologia. Análises das condições do meu corpo eram feitas três vezes ao dia. Remédios foram reescalonados, exames de todo tipo se multiplicaram, quarto e banheiro limpos todas as manhãs, alimentação apropriada e farta: depois de alguns dias pensei ter me curado.

Entretanto, os profissionais atentos marcaram o dia da cirurgia: foi quando a Carol chegou do sul pra se juntar à trupe local. Só a vi depois que saí pro corredor já acordada da anestesia. Ela e Clara me receberam de volta ao mundo dos vivos, agora, com a cabeça cortada. Eu estava bem, continuei bem até sair dali de volta pra casa, caminhando.

Eduardo, Carolina, Maria Clara, Amanda, Ana trabalhavam na logística pra minha volta pra casa: dedetização, colocação de barras nos banheiros, compra de comida e remédios e muito mais. 

A recuperação relâmpago me rendeu alguns apelidos, sem problema, acabamos nos divertindo com as brincadeiras. E, logo, o mundo voltou a ser o que tinha sido: cada um vivendo a própria vida como escolhas próprias. Com um plus, entretanto: a adversidade fez com que nossos laços de família se estreitassem e o que cada um aprendeu não tem preço.

E, hoje, domingo, o sol disputa o céu com nuvens errantes de outono; há frescor nesse começo da nova estação: e gratidão sem tamanho pela experiência vivida, pelo amor recebido de todas as direções, pela alegria de estar novamente no meu canto da casa tomando o café da manhã. 

Por 

Magda Castro

Brasília, DF, 12 de abril de 2026.

segunda-feira, 9 de março de 2026

...NÃO FOI SEMPRE ASSIM

Todas as manhãs, como ritual ou hábito de oração, envio mensagem pro Jean pelo WhatsApp. Escolho entre as que guardo como especiais e encerro, todas, com "Deus o abençoe, filho amado!" Depois, toco os pês de Nossa Senhora Aparecida e rezo tantos pai-nosso quantos dou conta misturados com ave-marias enquanto arrumo o quarto tentando começar o dia. Ainda rezando, desço escadas equilibrando bandejas, celular, saco de lixo.

Hoje cedo, ao botar o lixo na rua, vi um jovem catando plásticos e latinhas. Já o havia visto antes e, algo me deu vontade de ajudar: puxei conversa. Ele lutava pra pendurar tudo na bicicleta; perguntei se estava bem, e a esposa. Ele se sentiu à vontade, contou estar indo de volta pra Goiás que a irmã iria ajudá-lo a terminar os estudos. Foi daí que ofereci: "Tenho cadernos guardados, se precisar, pode vir buscar depois". Ele consentiu.

Foi por isso que abri de novo armários inertes à procura dos tais cadernos. São muitos de tantos tempos, meus e das "crianças" guardados como lembranças. Dentre eles, havia alguns bons, mas três deles estavam amarrotados, manchados de muitas cores entre tintas, bolor, rabiscos; são do Jean.

Todas as vezes que os pego, vasculho as anotações, os números, os rabiscos, tudo o que pode me indicar o porquê. Procuro os sinais, as provas de como meu filho era, tentando entender, explicar, aceitar. Desta vez, de dentro de um dos cadernos empoeirados achei uma lista de exercícios, parecendo ser de finanças, com o registro do número de aluno do ano 1995. Todas as respostas tinham um C vermelho possivelmente de quando o professor os corrigiu.

Sim, todas as respostas tinham o C de certo; e o nome dele em letas firmes, redondas de mesmo tamanho, claras, bonitas eu diria, estava escrito num canto de página. 

Provas de que era assim o meu Jean.

Magda Castro

Brasília, DF, 09 de março de 2026.