segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

MALA DE VIAGEM

Segunda-feira, em geral, começo recolhendo o lixo do banheiro; depois de abrir as janelas de cima. Em seguida, tiro o lixo da saleta, desço, junto o da cozinha já ensacado de véspera, parto pra catar o da varanda. Juntado esse lixo, varro a calçada dos fundos e pronto! Rua! que o caminhão pega tudo logo de manhã. Hoje, dia lindo de verão com promessa de chuva, tinha roupas íntimas no saco de lixo; essas não poderão ser doadas.

É que preciso continuar as doações de toda espécie já que botei a casa na imobiliária para vender por motivo de viagem. Agora, pensa a dificuldade que tenho em fazer mala. Enquanto escolho o que levar, vou vasculhando cantos, abrindo gavetas, caixas, desarrumando arrumações. Vou limpando frestas, tirando teias de aranha, colocando sachês perfumados de volta. Sempre quero deixar tudo pronto para quando voltar. Por outro lado, me preocupo se o clima lá será diferente daqui, se meus novos compromissos exigirão isso ou aquilo, quem encontrarei.

Viajar traz surpresas de todo tipo, logo, não se deve andar com malas pesadas demais: atrapalhariam aproveitar melhor a viagem.

Magda Castro

Brasília, DF, 02 de fevereiro de 2026.




segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

De escorpiões

A cidade cimentada, mesmo que com plantas simétricas, nos traz a ilusão de que o mundo lá fora não existe e que vivemos em eternas perfeições; das do tipo que compramos em supermercado. Desses, há tantos hoje que me esforço pra lembrar detalhes dos armazéns encantadores onde comprava bolachas maria no quilo. Saía da venda tilintando tamancos e beliscando delicias raras até virar a esquina de casa.

De ilusões, também tantas, vivi muitas pela vida afora, e, creio ser jeito meu de ser, custava reconhecer a realidade do que e quem me cercava. Como levando bolachas, segui feliz cumprindo o destino e me esforçando pra ser pessoa boa. É que dentre essas ilusões, a que me cercava a miúde era de que se fosse boa seria recompensada; se fizesse tudo certo não seria castigada; e seria amada. Coisa boa ser amada, né? Esse era meu jeito de pensar o mundo, e vivia de acordo.

Entre vírgulas e interrogações pela  vida afora, chegou o momento, natural, de  fazer a leitura da "coisa": pessoas não são o que parecem, eu junto, e mesmo que se tenha feito o certo, ou tentado, não haveria misericórdia se envolver interesse maior que o seu. No caso, pessoas nem se dariam ao trabalho de lhe explicar a paulada: você que se vire!! Pedido de desculpas, ou gesto de gratidão, não haverá: pode chorar, mas vai enxugar as lágrimas sozinha. E arrisca ainda ter que pagar a conta, lição inesquecível. Agora, que jamais esquecerá será o apelido jocoso, algo como "porca louca", que tal? Entendeu?

Sim; adeus às ilusões é nome de filme, ficção, mas que conta realidades, e pensa no tanto que é triste esse "filme". É triste, e mais, pode ser susto grande, surpreendente, ler realidades; o maior desafio humano? Mas de susto em susto pode-se aprender outro pedaço quando o real acontece no nosso mundo plastificado: já caia a noite quando tive que abrir a porta da área de serviço. Não entendi de imediato o  que era aquela coisa dourada bem à frente. Precisei raciocinar para acreditar que aquilo ali era escorpião, e pertinho dos meus pés. Escorpião no meu mundo arrumado? Como é possível isso? De onde vem, e porque está aqui?

O que sei, por ora, é que é tempo de escorpiões. 

Por Magda Castro

Brasília, DF, 15 de dezembro de 2025.