quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

MENSAGEM NUM DIA AZUL

Azul é jeito de falar... é o céu que é azul demais em Brasília: um mar. De cabeça para baixo, mas é azul e não respinga na gente. Azul, talvez, seja por causa da manhã tranqüila, coisa rara que aproveito com gosto. Aliás, gosto é coisa que não discuto, nem é por causa dos meus que são até bem comuns, mas porque tem tanta gente no mundo e cada um com cada gosto esquisito que é melhor ficar calada. Fico, calada, mas não deixo de pensar nisso. Esquisito, aliás, foi um bicho que achei paradinho em cima de um azulejo da cozinha ontem à noite, quando fui guardar os restos de comida e botar as panelas de molho para lavar hoje cedo. Lavar louça é algo que até não desgosto tanto, mas o bicho era esquisito ainda mais que a gente aqui em casa está acostumado a ver baratas, formigas, pernilongos. Aquele era pequenino, mas estranho. Ah, aqui em casa também tem traças; e uma cadela, mas as traças tem de vários gostos. As maiores são as que vivem se enfiando nos cantos mais calmos para ler livros. E livros, os temos muitos – vou parar de escrever a gente porque me confundo na hora de conjugar os verbos, e verbos,vocês sabem é coisa sem a qual a gente, nós, escrevemos coisa nenhuma. Escrevo porque gosto, e talvez seja a coisa que mais goste de fazer hoje em dia, mas a correria – sonho com um cantinho sossegado, calado que nem o bicho esquisito do azulejo que voou antes que pudesse esmaga-lo, para poder criar alguns personagens diferentes, talvez esquisitos também - não dá tréguas. É que acredito que, para escrever, preciso de concentraçâo, e bons temas, claro. No meu caso, acho que só posso falar do cotidiano – essa palavra é bonita que só – é o que mais posso fazer. É que gostar eu gosto, mas a imaginação já está contaminada com a racionalidade com a qual preciso contar para sobreviver. Ou seja, não tenho estrutura financeira, dado que ainda preciso manter uma casa grande funcionando, e daí não posso querer ficar só por conta de escrever. Mas que gosto, gosto, sim, apesar, olha aí, da bobajada que escrevo. Então, fica o gosto, bom, de gostar de escrever sobre esqusitices e coisas nem tanto, mas até engraçadas; ou nem tanto. Por exemplo, falei de sonho, e a Clara veio me contar que sonhou um sonho bem esquisito. Disse que falava comigo enquanto eu estava recostada na cama do meu quarto, essa, muito antiga, praticamente uma amiga da família. Ela contou que enquanto conversava comigo, ela de pé, me via pelo espelho, esse pareado com a cama e atravessado na parede em frente. Ela explicou que me via recostada, mas, ao mesmo tempo, me via pelo espelho zanzando como sempre faço correndo de um lado para o outro na casa, arrumando, organizando, limpando...
Dias atrás uma ex-cunhada – e isso existe? – estava lavando a louça e me viu ensinando alguém como preparar o lixo limpo para ser reciclado. Daí, ela comentou: você continua sendo a perfeccionista de sempre? Não me ofendi, acho até que estou amadurecendo nesse aspecto - e quem me dera fosse só nesse, penso no meu traseiro - e respondi que “não sou perfeccionista, só acredito que há um jeito certo de fazer as coisas”. Sim, continuei, tenho mania de fazer discurso sobre teias de aranha, então, “acredito que se você não fizer bem feito da primeira vez, vai ter que fazer de novo, então, é melhor fazer certo logo”. Mudei de assunto, acho, mas me lembro que estava catando o lixo da casa nessa ocasião e devo ter saído da cozinha para continuar a tarefa. Mas o sonho achei que foi bem interessante ainda mais que depois – ou antes? – estávamos comentando sobre o período da adolescência que, em geral, o adolescente não quer os pais por perto, por exemplo, levando e buscando no colégio – minha filha mais velha disse que gostava de me ver chegando vestida bonitamente e esvoaçando os cabelos pelos corredores dos colégios procurando por ela. Ah, quanto procurei, esperei, conduzi e vigiei minha turma!! Era um tempo rico de eventos, de idas e vindas, de crianças lindas por toda parte...
Não é esse o tempo de hoje, é diferente, mas tem gosto e encanto também, como tudo no mundo, afinal, tem dois lados... e falando de lado, tenho que voltar para o trabalho: preparar as apostilas com os conteúdos das aulas que estão vindo por aí. É que o carnaval acabou, as visitas – queridas – foram embora, e tenho o dia de hoje para adiantar as coisas.
“Coisa” é o nome de “patrimônio”, conceito de Contabilidade que a gente estuda, melhor, estudamos em Teoria da Contabilidade, umas das disciplinas que ensino – ou aprendo?
Bem, perguntas há muitas, as respostas, bem, as respostas, assim que descobrir aviso, ah, escrevo, depois, claro, porque se continuar nessa lenga-lenga não paro de escrever nunca mais porque o que contar tenho...

Por
Magda R M de Castro
Brasília, DF, 22 de fevereiro de 2012.

domingo, 21 de agosto de 2011

FEITA DE PALAVRAS

Essa é a resposta a uma pergunta da última capa de uma revista semanal: do que você é feito? Na mesma revista, tem uma reportagem sobre os desafios vencidos por professores de matemática, o enfrentamento das adversidades com diferentes instrumentos. Se sobressaíram, e junto, seus alunos, na última olimpíada de matemática acontecida no Brasil. Mesmo admirada com a paixão desses exemplares professores pela lógica dos números, não seria outra a resposta para a pergunta do que sou feita. Essa não me veio à cabeça, assim, de repente: nasceu de um ponto mínimo em longínqua célula e se espalhou como relâmpago pelo corpo inteiro. Como uma luz de super-nova se irradiou por todos os meus poros antes obscuros: sou feita de palavras.
E que me perdoem os números. Dia desses, confessei a uma das turmas da faculdade: sou apaixonada pelas palavras. Isso para explicar porque o banco de questões das provas que serão aplicadas no próximo mês é formado, totalmente, de perguntas subjetivas. Diante do “Ahh...” geral expliquei que a subjetividade é a pessoa em si, é o sujeito que pratica a ação. Simplista demais, sei, mas é como explico que pensar é juntar informações esparsas numa sequência entendível de mensagem, ou lição, útil. Também modo simples, nem tanto simplista, de explicar que as respostas às questões das provas poderiam se situar entre uma única palavra e uma frase completa, ou período, mas, palavras.
Em suma, as provas são feitas de palavras, e muitas delas do próprio aluno. Ele não teria os teoremas, as formas de lógica, as somas exatas para orientá-lo na resposta. Teria um catatau de textos, com palavras de todo lado, como ponto de partida para a formulação de uma idéia nova, ou quase, então, para me convencer de estar certa, a resposta teria que ser genuína. Mesmo assim, fui convidada, num arremedo de troça, a montar algumas questões de ‘marcar x”. Respondi que uma reflexão crítica não caberia em questão desse tipo, mas não pareceram convencidos quando começaram a comentar com o colega do lado. São palavras, gente, importantes formas para comunicar pensamentos.
Sei que há muitas dificuldades, no Brasil, quanto à leitura, e consequentemente, quanto à interpretação de textos sejam eles clássicos, notícias de jornal, questões de provas. Acredito que isso seja consequência de uma conjuntura nacional de políticas seqüenciais prejudiciais à educação. Acredito, também, que esses prejuízos se refletirão ainda por muitas gerações e que a solução seria a conjugação de esforços individuais, como visto na reportagem, e estruturas sólidas, tanto das instituições quanto de seus gestores.
E, claro, as deficiências não são apenas na interpretação dos textos, mas também de entendimento dos números disfarçados que flutuam no cotidiano, afinal, é deles, palavras e números, que é feito o mundo ao nosso redor. Ocorre que usar, com mais facilidade, a palavra ou o número, depende dos talentos de cada pessoa, o que afinal, é prova do que somos feitos.
Por Magda R M de Castro
Brasília, DF, 21 de agosto de 2011.